Cordelirando...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Neste blog você encontrará alguns cordéis de Salete Maria, bem como notícias acerca de sua produção e seu diálogo com outros artistas
... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Lugar de Mulher, recitado por Salete Maria

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

URCA: Caso de Polícia?*


Salve, salve a liberdade
Sobretudo de expressão
Ela é mãe da verdade
Prima-irmã da razão
Venha em prosa ou poesia
Trará sempre à luz do dia
A mais oculta versão

Fazendo revelações
Puxando pela memória
Parindo indagações
Reconstruindo a história
Dizendo o que não se diz
Raspando todo o verniz
Da mais ‘ilustre’ escória

Assim como em oração
Antes de qualquer pedido
É bom fazer saudação
Ao protetor mais querido
Assim farei nesse verso
Que seja ou não controverso
Mas que seja muito lido:

Minha lira nordestina!
Meu Santo Jorge Guerreiro!
Minha nebulosa sina
Tiéte de cancioneiro
Menestréis inspiradores
Trovadores, glosadores
Sirvem-me de candeeiro!

Iluminem minha mente
Neste infeliz enredo
Para que eu, consciente,
Não poupe nenhum segredo
Para que a Academia
Possa dizer algum dia:
Basta, já não temos medo!

Já fiz uns vinte cordéis
Já assumi muitos pleitos
Nunca ganhei um só réis
Eis o meu pior defeito
Mas uma coisa é certa
Sempre dei o meu alerta
Sempre defendi direitos!

Fiz louvores e denúncias
Comprei brigas voluntárias
Tatuei minhas pronúncias
Em bandeiras libertárias
Me somei às margaridas
Em chegadas e partidas
Nessas marchas proletárias

Pus a minha poesia
Para servir de libelo
Daquela dor que doía
Daquilo que não tolero
‘minha estúpida retórica’
Minha arma metafórica
‘palavras pra que te quero?’

Não posso silenciar
Ante tanta bagaceira
Nem posso só lamentar
E viver na pasmaceira
Na luta pelo direito
Aquilo que não foi feito
Causou derrota certeira

Pois bem, vou dizer agora
O que me aflige tanto
E a cada dia piora
Não tem remédio nem santo
É algo muito gravoso
Chega a ser criminoso
Me faz perder o encanto

Mas antes de prosseguir
Usarei um estratagema
Pois vão querer me punir
Me aplicando uma pena
Vou meter uma ficção
No meio desta versão
Pra não dar nenhum problema

“Sonhei que tava num Centro
E um espírito chegou
Me chamou lá para dentro
E me olhando falou:
Anote o que vou dizer
Depois divulgue a valer
E nunca mais terás dor

Eu toda me contorcendo
Doente, acabrunhada
Deprimida, já morrendo
Da URCA licenciada
Pensei: não tenho saída
Se aqui encontro guarida
Terei que ser bem mandada

Mesmo sendo marxista
Senti a culpa cristã
Aceitei aquela pista
Pois pobre não tem divã
O espírito disse assim
Entregue su'alma a mim
E sua vida não será vã

Eu disse: tu és meu dono
E seguirei tua lei
Não me deixe no abandono
Serás pra sempre meu Rei
E ele disse: amanhã
Tu provarás da maçã
Tudo te revelarei

Após comer do tal fruto
Vi tudo com mais clareza
Da vista tirei o luto
Então me veio a certeza:
Este espírito é dos meus
Mil glórias darei a Deus
Ele é minha fortaleza

O espírito disse assim:
Publique aquele cordel
Deixe a bronca para mim
Cumpra logo seu papel
Vão dizer que tu pirou
Que finalmente surtou
Que agora tu és pinel

Conforme me foi soprado
Eu transcrevo a seguir
Tudo me foi informado
Aos poucos fui conferir
Chequei a veracidade
Já não tenho mais idade
Para viver a mentir

Aqui termina a tática
Para não ser processada
Adiante vem a prática
Conforme será narrada
Por meu espírito-sócio
- Quem sabe litisconsórcio?-
Não tenho culpa de nada

Na URCA onde laboro
E tenho muita amizade
Neste lugar que eu adoro
Digo com sinceridade
A coisa tá muito feia
Quem não tem sangue na veia
Não encara esta verdade

Desde que o interventor
Assumiu a reitoria
Desde que esfacelou
A nossa autonomia
Desde que impôs o medo
O que digo foi segredo
Já não é mais hoje em dia

Toda sorte de engodo
Trapaça e falcatrua
Em meio à lama e ao lodo
Ao sol e à luz da lua
Se pratica nesta casa
Escondida em cova rasa
Quase à porta da rua

Trambique, muita mamata
Jogo, conchavo e esquema
Escrito ou não em ata
Igual ou não no cinema
Tudo para atender
Àqueles que no poder
Têm o roubo como lema

Muita irregularidade
Desmando e perseguição
Muita falta de hombridade
Ameaça e demissão
Muitos colegas morrendo
Muita gente adoecendo
Tristeza e depressão

Eis o cenário do medo
A cara da Academia
O bicho que desde cedo
Sua feição escondia
Eis o quadro do terror
‘novos tempos de horror’
Que muita gente temia

Vejam só a s transferências
Ditas como irregulares
Quanta vil conveniência
Auxiliando seus pares:
Caspa e desnutrição
Até piolho é razão
Pra transferir escolares

Por isso a Promotoria
Destemida e operante
Denunciou tal ‘orgia’
Chamada de ‘abominante’
Na esfera federal
Pra evitar que o Chacal
Assedie o judicante

Mas outras coisas piores
Estão pra acontecer
Talvez sejam bem maiores
Do que eu digo a você
Imagine os contratos
Vai haver espalhafato
Ouça o que eu vou dizer

Os cursos de Iguatu
Que bela imoralidade
Eu adverti a tu
Essa pouca insanidade
Quem já viu a URCA ter
Uns cursos para vender
E noutros gratuidade?

Campus sem biblioteca
Professores sem pesquisa
Ficam jogando peteca
Mas que reitor cara lisa!
Um faz de conta total
‘grupo de terceiro grau’
Onde o Rei casa e batiza

E as tais mensalidades?
Pra onde é que elas vão?
Cadê as autoridades?
Doutores da região!
Fogueira de vaidades!
Pululam iniqüidade
Nesta jovem fundação!

Se tem aluno pagando
E caro! Pra estudar
E se ainda está faltando
Até água pra tomar
Não é então o momento
De deixar de fingimento
E tudo isto apurar?

Nunca mais reunião
Nos conselhos acadêmicos
Só pra condecoração
Nada de temas polêmicos
Tudo ad referendum
E a URCA se fudendum
Nesses males não endêmicos

Muitos vícios cometidos
Nos testes de seleção
Muitos discursos não-lidos
Nas festas de colação
Muita gente indignada
Mas tesa, muda, calada
Temendo perseguição

Provas trocadas no dia
De exame vestibular
Seleção pra graduado
Envelope sem lacrar
Candidata pra Direito
Faz um teste tão bem feito
Que engenheira será!

Processos de ascensão
Sumindo de gabinetes
Projetos de oposição
Se perdem qual alfinetes
Pró-reitores muito caros
Resultados muito raros
Alguns são meros enfeites

Muita pompa e muita fita
Muita pose sem trabalho
Quem será que acredita
Eis um jogo de baralho
Quem será que vai bater
Estou pagando pra ver
Mais um ato dito falho

E no curso de Direito
Onde o caos é pior
A coisa ta tão sem jeito
Que às vezes causa é dó
Tem gente com vaga certa
Pois a porta está aberta
Basta ter um paletó

Tem gente que não estuda
E depressa cola grau
A coisa é tão cabeluda
Que agora no Natal
Uma aluna ‘visitante’
Com ajuda importante
Quis se formar, afinal

Mesmo sendo reprovada
Disse que ia mostrar
Pois era orientada
Às aulas não freqüentar
Um ad hoc professor
Suas faltas abonou
E ninguém ia empatar

Depressa o seu pedido
Foi pra mesa do reitor
De fato foi remetido
Pelo seu coordenador
É acintoso demais
Tem que ir para os anais
Porque é fraude e complô

Nas férias qualquer cadeira
Podia se ofertar
Parecia uma feira
Negócio espetacular
Sem ouvir departamento
Sem nenhum constrangimento
Bastava o aluno pagar

Mas como estava demais
E todo mundo mangava
Como não somos iguais
Isto nos envergonhava
Um dia a farra exauriu
Departamento impediu
O golpe que ali se dava

Houve até um magote
Que andou se cadastrando
E dizia que o mote
Era ‘cinquenta pagando’
Pra adiantar o curso
Pois lá havia um urso
Que tava tudo ajeitando

Sei que negócio era feio
Tinha dinheiro envolvido
Aluno no aperreio
Nem era admitido
Isto tudo acontecia
À tarde, à luz do dia
E ninguém era detido

Tem gente que anda armada
Revólver de todo jeito
Uma discussão cerrada
Pode dar tiro no peito
Aluno ou professor
Só de pensar sinto dor
Isto tem que ser desfeito

Um professor que faltava
Por motivos pessoais
Os alunos reclamavam
Pois já estava demais
O senhor coordenador
Os seus nomes anotou
Para não falarem mais

Tinha até um estudante
Que ensinava também
Ele era o informante
E vivia a se dar bem
Está desaparecido
Mas o salário devido
Todo mês na conta vem

Tem colega há dois anos
Gestante e afastada
Acho que ela faz planos
De vir quando aposentada
Tem outro que se ‘enfezou’
E nunca mais trabalhou
Nem lhe aconteceu nada

E nem vai acontecer
Pois estão todos calçados
Se mesmo sem se eleger
O reitor foi empossado
Que moral pensa que tem
Pra exigir de alguém
Que dê conta do recado?

Processo de toda cor
Ameaçam instaurar
Pra perseguir professor
Basta só ele falar
Tem gente que até mudou
De repente amarelou
E nem bom dia me dá

O comitê de pesquisa
Virou de perna pro ar
Muda e ninguém avisa
Que composição terá
Somos todos uns jumentos
Nos nossos departamentos?
Vivo a me perguntar

Toda pós-graduação
Tem confiscado seu crédito
Medida de contenção
Vejam que fato inédito
Faliram a FUNDETEC
Apropriação hi tech
A URCA tá no descrédito

Os alunos do Magister
Reclamam por seus diplomas
Ninguém lhes diz que o gangster
Tá escondendo os sintomas
A URCA virou mercado
Quem não paga é roubado
Deus sabe o vulto das somas

Tem professor aprovado
Em concurso anterior
Que jamais será chamado
Assim diz o interventor
Mas outros são convidados
Sem D.E. e sem mestrados
Para esta gang compor

“Dos juízes sou amigo”
Anda bradando o reitor
Se achando ‘o garantido’
Onipotente feitor
Se perguntar não faz mal:
É do juiz de Sobral,
Magnífico doutor?

Não pense você que isto
Amedronta quem labora
O mal juiz é um cisto
Que se arranca e joga fora
Se o povo não tá contente
Derruba até presidente
Pra tudo se tem a hora

É um caso de polícia
Nossa universidade
Todo mundo dá notícia
Das irregularidades
Se cada um for chamado
Tudo será relatado
Com muita facilidade

Quem sabe uma auditoria
Um inquérito civil
Nisso o povo confia
Exemplos há no Brasil
Quadrilhas são desbancadas
Pois as provas são guardadas
Pelo próprio esquema vil

Enquanto isto não vem
A vida se vai levando
O poder que a gente tem
Vai se manifestar quando
O BERRO for de agonia
E não uma alegoria
De quadrúpede cagando

Sabemos que a URCA tem
Ótimos profissionais
Que de todo canto vem
Que são retos e leais
Que querem colaborar
Ensinar e pesquisar
Viver e dormir em paz

Sabemos que muitos são
Duramente perseguidos
Vivem nesta região
E são bastante queridos
São conhecidos do povo
Querem construir o novo
Sem pisar sobre os antigos

Sabemos que a estudantada
Também não está contente
E que não fica calada
Pois um dia de repente
O grito vai eclodir
Muita gente há de ouvir
‘choro e ranger de dente’

Fica aqui o meu recado
Meu desabafo em cordel
Se cometi um pecado
Um dia não vou pro céu
Mas se dei voz a quem vê
Os desmandos do poder
Então cumpri meu papel

Peço a Universidade
Quem me ajude a divulgar
E a maior autoridade
Que tiver no Ceará
Saberá por poesia
Que a URCA hoje em dia
Tá prestes a estourar

E sendo tudo verdade
Como afirmo que sim
Que alguma autoridade
Mande intimar a mim
Pois direi o que conheço
Mesmo pagando o preço
Por ter agido assim

Se é caso de polícia
Que seja investigado
Se não passa de malícia
Que seja então processado
O espírito que me soprou
E meu dedo que digitou
Texto psicografado

*Cordel escrito pela autora em Maio de 2005. Qualquer semelhança com a atual realidade é mera coincidência (ou não).

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O QUE É A VELHICE?


Dois velhos filosofavam
Acerca de suas vidas
Sobre tudo comentavam
Amores, dores, feridas
Ela falava baixinho
Ele escutava sozinho
Aquelas frases sofridas:

É sempre muito cruel
O mundo em que a gente vive
Pois o que está no papel
Na prática não sobrevive
O respeito ao idoso
É um assunto jocoso
Demagogo, inclusive

Você tem toda razão
- disse o velho à senhora-
A tal discriminação
É a atitude 'da hora'
A nossa categoria
Jamais ganhou alforria
E a humanidade ignora

Ser velho neste planeta
É como não valer mais
É como uma camiseta
Rasgada à frente e atrás
É viver na solidão
No meio da multidão
Não sendo visto jamais

É como passar batido
É não ser observado
É como ser esquecido
Pelo ente mais amado
É como não existir
É comer e não sentir
O sabor de um guisado

É mesmo muito ruim
O que sentimos agora
Mas nem sempre foi assim
Ao longo de toda História
O velho tinha valor
Sapiência e amor
Status, luzes e glória

Era muito respeitado
Por ser mais experiente
Bastante considerado
Por ser de tudo ciente
Mas perdeu sua importância
Quando surgiu a ganância
Da parte do mais valente

Quando a força se impôs
E os bens materiais
Quando ficou pra depois
O amor e tudo mais
Quando enfim o capital
Deu o passo inicial
O velho não valeu mais

Quando o exército pediu
O vigor da juventude
Quando a indústria exigiu
Braço forte e saúde
Quando o Estado percebeu
O “custo” que o velho deu
Disse: é preciso que mude!

Que nada de experiente!
O velho só atrapalha
Esclerosado e demente
É como uma cangalha
Vamos ter de carregar
Levando a todo lugar
Este resto de metralha

Então o velho deixou
De ser alguém venerado
E bem depressa passou
A ser mui enxovalhado
De respeitada, a velhice
Passou a ser rabugice
E o velho foi humilhado

A tal ancianidade
Foi vista então com desdém
Quem fizesse mais idade
Não seria mais ninguém
Chamar-se-ia antiquado
Obsoleto, quadrado
Arcaico, matusalém

Alguns os chamam trambolho
Fardo, inútil, atrasado
Não põem as barbas de molho
Vivem um tempo parado
Acham que o hoje é eterno
Se julgam sempre moderno
Amanhã serão passado

O culto à mocidade
Que consome, que trabalha
Aos que têm pouca idade
A quem, em tese, não falha
Aos que servem o capital
É o jogo do vil metal
Dessa corja de canalha

O que é velho é remoto
É negativo, é ruim
É qual um álbum de foto
É a ante-sala do fim
Faz parte da neo-cultura
É a porra da sepultura
Por que tem que ser assim?

É certo que é relativo
Nem tudo que é velho é bom
Mas eu falo do ser vivo
E não da caixa de som
O homem que envelheceu
Aprendeu, amou, viveu
Plantou, colheu, deu o tom

A vida não é constante
Tem fases, muda, evolui
A idade é um instante
O tempo ninguém possui
A maturidade vem
Para o mal ou para o bem
Quem quiser que continue!

Ambos foram professores
Cultos, intelectuais
Ela doutora Dolores
Ele, mestre Ernesto Paz
Uma vez aposentados
Ficaram enclausurados
Não souberam viver mais

Naquele dia a idéia
De voltar a pesquisar
Pra entender a epopéia
Do homem ao declinar
Cogitou de teoria
Armou-se de energia
Pr'uma tese formular

Decidiu sair à rua
E entrevistar a massa
Foi uma tática sua
Sentar-se ali na praça
A inquirir quem passava
Sobre o tema que versava
Trabalhava ele de graça

Nesta hora então passou
Um outro casal longevo
Ernesto a eles parou
E disse-lhes: eu escrevo
Um livro sobre o idoso
E quero saber do povo
Se continuá-lo devo

Quero provar que o homem
Não suporta envelhecer
A mal, por favor, não tomem
Este meu (pré) parecer
Mas é que tudo conheço
E respeito então mereço
Pelo que vou escrever

De vocês quero um conceito
Sobre esta condição
Não precisa ser perfeito
Pois vejo limitação
Eu só vou aproveitar
Aquilo que interessar
À minha atual visão

O varão disse: colega!
O tema é muito atual
Envelhecer é uma trégua
Que a gente dá, afinal
Faz parte de um processo
Não sei ao certo, confesso
Se é recomeço ou final

Disse a velhinha passante:
Veja que maravilhoso
Perguntas neste instante
Se meu guarda-chuva é novo?
Como poderei comprar
Se o que recebo mal dá
Pra comer arroz com ovo?

Um outro entrevistado
De meia-idade falou:
Estou muito apressado
Em nada ajudo o senhor
O tema não me interessa
Tô vexado, tô com pressa
Vá consultar meu avô

Uma moça que passava
Disse: a velhice é um saco!
Um jovem que estacionava
Gritou: é o mó barato!
Os velho não vêem nada
A gente rouba a mesada
Eles juram: foi um rato!

Uma criança inocente
Falou: meu avô é lento
Mas ele me dá presente
Quando recebe o “aposento”
Uma madame vulgar:
“Eu sofro só de pensar
Ficar velho é um tormento”

Uma senhora enxuta
Benzeu-se e respondeu:
“Eu enfrento uma luta
Que minha mãe já sofreu
Escondo uma ruga aqui
Um pé-de-galinha ali
Já não reconheço eu”

Mais adiante um rapaz
Disse: eu conheço alguém
O senhor não é capaz
De dizer que anos tem
É uma velha humorada,
Que vive a dar risada
Gozada como ninguém

O mestre se interessou
Por encontrar tal pessoa
Ele a entrevistou
E viu que não era à toa
O jovem tinha razão
Era cheia de emoção
Contava proas e loas

Disse ela sem sermões:
Velha é a serra, a estrada
Envelhecer traz questões
Com mil respostas erradas
Se já não temos vigor
Transbordamos em amor
Mas já não somos amadas

A velhice põe em cheque
Algumas convicções
Já não somos mais moleques
Já não temos ilusões
O presente é o futuro
Somos o fruto maduro
Ao cabo das estações

Costumo ironizar
Com quem caçoa de mim
Gosto de me maquiar
Desde moça sou assim
Meu cabelo agora é branco
Mas não desço do tamanco
Uso roupas de cetim

Eu sei que há diferenças
E há discriminação
Sei que muita gente pensa
Que o velho não tem visão
Eu mesmo cega dum olho
Costuro, cato piolho
Assisto televisão

Tá certo, nada é igual
Uns estão na solidão
Em casa ou num hospital
Em asilo ou em pensão
Mas se a gente não sorrir
Não namorar, não sair
Piora a situação

Se o velho rico recebe
Tratamento especial
E o velho pobre, da plebe
Mal toma um fino mingau
Não vejo o governo agir
Não tenho porque mentir
Vida boa é a de Lalau

Nessa ocasião chegou
Um velho muito janota
Envolto num cobertor
Calçando um par de botas
Olhou o homem e falou:
Eu vou contar pro senhor
Por que fui Rei em Pelotas

Costumo matar charadas
Como serei atrasado?
Se tenho idade avançada
Só posso viver avançado
O povo é meio bilé
Pensa que o velho é
Um doido, um abirobado

Não sou triste como tu
Que é jovem só por disfarce
Se tu tens prega no cu
Também as tenho, na face
Digo que sou sazonado
Macróbio, experimentado
Representante da classe!

O professor encerrou
A gravação e partiu
Chegou em casa e pensou
Em tudo o quanto ouviu
Conclui: que coisa louca!
Velhice é o que sai da boca
Do jovem-mundo-senil

É menos limitação
E mais visão distorcida
É menos saturação
E mais idéia vencida
Ser velho é um conceito?
Não sê-lo é preconceito?
Não sei de nada da vida!

A velhice é o futuro
- o mundo envelheceu-
Quem fez o sexo seguro
Um filho não concebeu
Em breve o mundo será
Mil velhos à beira-mar
Somos ele, tu e eu

Nem todo velho é ranzinza
Nem todo outono é tristeza
Nem toda nuance é cinza
Nem toda falta é pobreza
Nem tudo que é novo é zero
Nem tudo que tenho quero
Nem toda tese é certeza

E para finalizar
A autora faz sua fé
“Preciso homenagear
Uma ‘antiga’ mulher
É minha avó a danada
90 anos de estrada
Salve Maria José!”

O QUE É SER MULHER?

Sobre a mulher já se disse
Tudo que se imaginar
D’uns eu já ouvi tolices
D’outros, me pus a pensar
Mas este ser – a mulher-
Afinal o que é que é?
Quem se atreve a explicar?

É, afinal, a pessoa
Que nasceu pra procriar?
Ou é a esposa boa
Que tão bem cuida do lar?
É a moça delicada?
Ou a menina arrojada
Que sabe escandalizar?

Responda: o que é mulher?
Para que eu compreenda
É alguém que dança balé
E tem no sexo uma fenda?
É a noiva de Tarzan?
Ou é a loira do “Tchan”?
Cujo corpo está à venda

É uma triste donzela
Que mora no interior?
Ou a balzaquiana bela
Que na Playboy se mostrou?
Mulher é filha do cão?
Ou é de Deus criação
Que o diabo cooptou?

Afinal, que é mulher?
Este ser tão contemplado?
Que tão bem faz cafuné
Deixa o homem estimulado
Será alguém que menstrua?
Que não raro fica nua?
Que inventou o pecado?

É mulher quem sucumbiu
Aos apelos sexuais?
É mulher quem nunca ouviu
O grito dos marginais?
É mulher quem noite e dia
Vive combatendo estria
E não luta pela paz?

É mulher quem é omissa
Frente à exploração?
Ou é mulher quem cobiça
Ser amante do patrão?
É mulher quem não resiste
Acha normal e admite
Viver sob a opressão?

Mulher é aquele ser
Que vive para um varão?
Ou mulher pode viver
Com outra mulher, então?
Quem afinal é mulher
Aquela que bate o pé
Ou a que nunca diz não?

Alguém já nasce mulher?
Ou em mulher se transforma?
E se um homem quiser
Então mudar sua forma?
Quem poderá impedir?
Se a alma consentir
Quem pode ditar a norma?

Alguém nesta condição
Terá então que usar saia?
Ou fazer depilação
Sempre que sair à praia?
Combater a celulite
Nunca recusar convite
Antes que o seio caia?

Mulher é quem faz o tipo
Da mulata “globeleza”?
Ou quem arrisca uma “lipo”
E agride a natureza?
É alguém que se enfeita
Mantendo a mente “estreita”
Em nome da boniteza?

Será mulher a gordinha
Que se ama e se respeita?
A negra, baixa, a magrinha
Que como é se aceita?
Ou somente é mulher
Quem o “mercado” disser
Ou por ele for eleita?

Que pergunta melindrosa
Esta que me faço agora
Mulher será a “gostosa”?
Ou a pacata senhora?
Ou mulher então será
Aquela que mais amar
O homem que a ignora?

Parece-me que a mulher
É um ser fundamental
Não é melhor que homem
Convém que seja igual
Não é mero “complemento”
É um “acontecimento’'
Do dito reino animal

Gente como o homem é
Não precisa apelar
E não é por ser mulher
Que melhor governará
A questão é o que pensa
O sexo só não compensa
“Tatcher” taí pra provar

É claro que entendemos
Que existe opressão
O machismo condenemos
Não façamos concessão
Mas no dia da mulher
Responda-me se souber
O que é ser mulher, então?


URCA: 18 de Julho


URCA: 18 de Julho

Foi no 18 de julho
Início da madrugada
Em que se deu o esbulho
Da brava rapaziada
O feitor mandou chamar
A polícia para espancar
Quem não aceita a jogada

Chegou a tropa de choque
E o camburão do GATE
Policial em magote
Deram o seu xeque-mate
A violência espalhou
E o ditador entrou
Conforme narra este vate

Entrou com o aparato
De repressão do estado
Era seu desiderato
Deixar este povo acanhado
Armas, bombas e escudos
Cacetetes e coturnos
Iniciam seu reinado

Era alta madrugada
Estudantes a dormir
Mestres davam cochiladas
Ninguém ousou reagir
Covardemente os soldados
Qual miquinhos amestrados
Mandavam todos sair

Era um ato de cinema
Encapuzados gritando
Um soldado teve pena
Pois também era formando
Disse: “tô cumprindo ordem
alguns latem outros mordem”
Foi logo nos avisando

Os estudantes saíam
Com os braços levantados
Os soldados os seguiam
Todos fortemente armados
Registravam o que convinha
Tomavam tudo que tinha
Tudo foi dilapidado

Quem por ventura passasse
Ali na ocasião
Não duvido que pensasse
Que só havia ladrão
Marginal, estuprador
Latrocida, malfeitor
Traficante e charlatão

Isto pela quantidade
De policiais presentes
Dada a atipicidade
Do grupo de insurgentes
Todos são gente do bem
Valores que a URCA tem
Democratas conscientes

Estavam a defender
O dito na eleição
Ousaram fazer valer
A recente decisão
De que fosse empossado
O que fosse mais votado
Esta é a grande questão

A história vai lembrar
Do dia que a URCA viu
Um ditador desmanchar
Tudo o que se construiu
Um sonho acalentado
De há muito cultivado
Que a força demoliu

Depredou-se a esperança
Danificou-se a utopia
Trincou-se a confiança
Apagou-se a luz do dia
Pichou-se o resultado
Do certame perpetrado
Na manhã daquele dia

Memorável esta data
Por tudo que ela encerra
Deverá constar em ata
Dado o teor da guerra
Golpe na democracia
Viola a autonomia
Aqui no sopé da serra!

Vê-se, pois, um jogo sujo
Onde tudo é normal
Onde uns gritam: eu fujo
Outros gritam: menos mau
Muitos se rendem ao rei
Justificam: é a lei
Quem resiste leva pau

O jogo de que vos falo
É o jogo do poder
Os meus olhos arregalo
Para melhor poder ver
Vislumbro muito desmando
Um ditador no comando
Escreve porém não lê

Após seus 16 anos
A URCA elege um reitor
Toma posse (por engano?)
Um anão interventor
Fantoche da burguesia
Lesou a democracia
Demagogo, usurpador

Por ato de um governo
Que não respeita eleição
Que pratica o desgoverno
Que usa a educação
Que fala em cidadania
Mas só põe na reitoria
Quem reza a sua lição

Acompanhado de seres
Expurgados daqui, dantes
Uns descumpriam deveres
‘Paranóias delirantes’
Cada um tem um passado
Onde fora investigado
Hoje são investigantes

Os chefes que te ajudam
Se gritar não fica um
Pois todos que te saúdam
Não o fazem em jejum
És qual Ali-babá
Há quarenta a te esperar
Nesta lata de atum

Chegastes qual general
Devastando todo mundo
Julgando-se maioral
Com teu projeto imundo
Mas só conseguiu entrar
Pela força militar
Que de ti zomba, no fundo

Rejeitado imensamente
Derrotado no certame
Se julgando inteligente
Ainda há quem te chame
Nesta terra de doutor
Magnífico reitor
Quem morreu talvez te ame

Pensando que esmagava
O sonho estudantil
Ou então silenciava
A quem você perseguiu
‘Ói nois aqui ôtra veiz’
Dando cotoco a vocês
Como o pró-reitor agiu

Trazemos pros estudantes
Notícias de sua história
E de seus acompanhantes
O que guarda na memória
Desmantelo e confusão
Muita esculhambação
Nessa sua trajetória

Só de irregularidades
Se enche um caminhão
Sem contar as inverdades
Desta tua mal gestão
As demissões imorais
E decisões ilegais
Mostram tua intenção

Falavas em novos tempos
E trás à baila impostores
Gente que dá nó no vento
E posam de educadores
A forma que tu entraste
Revela quem te mandaste
E quem são teus assessores

Alguns que a ti veneram
São urubus na carniça
Nem sequer te consideram
Estão aí por cobiça
Se vendem por um real
Iguais a ti, desleal
Choram quando vão à missa

Vede as verbas desviadas
Falta de licitações
Teu governo é uma piada
Faltam muitas demissões?
Quantos hás de perseguir?
Ninguém irá reagir?
Pergunto a meus botões...

Te prepara forasteiro
Que a alma dos Kariris
Há de te tanger primeiro
Que brotem os novos pequis
Se um comparsa te acunha
É só de leve a unha
Do que se guardam pra ti

Hás de provar com certeza
Do teu veneno mortífero
Esta tua esperteza
É qual um germe prolífero
Nada no mundo é eterno
Guarda o teu belo terno
Nem sempre serás mamífero

Com a polícia entraste
Com ela podes sair
A vida é de contraste
Quem chora também sorri
Tudo o que sobe desce
Tudo que é novo envelhece
Etecetera e zefini

Faço este verso irado
Qual o Boca do Inferno
Digo o que ta entalado
Talvez não seja moderno
Mando ao Bêrrêtiçôrrô
A Jurandy professor
Pras Letras mais um caderno

Assino a minha obra
Pois sei dar valor a ela
É o mínimo que se cobra
De quem escreve a novela
Nunca usei pseudônimo
Aqui relato o antônimo
Do que contém na panela

Dedico este cordel
A quem constrói esta Casa
Coloco neste papel
O meu poema em brasa
Gente forte, corajosa
Dedicada, vontadosa
Quem luta nunca se atrasa

Por derradeiro concito
Todos a brindar o dia
Em que ficou mais que dito
Que a polícia invadia
Por ordem do interventor
Com aval do governador
O sonho de quem dormia

Um brinde à resistência
Ao que se chama utopia
À palavra consciência
Também à democracia
Viva o 18 de julho
Dia de muito barulho
Pela nossa autonomia!

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento,
mas não dizem que são violentas as margens que o oprimem”
Bertold Brecht