E a UFBA está agitada
Teremos, mais uma, vez
Jogo de cartas marcadas?
Em contexto de disputa
E democracia fajuta
Não dá pra ficar calada
Que, em tese, já começou
Mesmo sem ter edital
Do processo consultor
Expõe os mesmos problemas
E aqueles velhos esquemas
De quem sempre comandou
Dois homens fazem campanha
Devotos matam a sede
De mostrar quem acompanha
O que outrora foi reitor
E o que nunca pleiteou
Mas vem da mesma entranha
Entre os simples seguidores
Conhecidos deputados
E até famosos cantores
Recomendando o voto
Como quem ganhou na loto
E retribui com louvores
Outros gritam: “ele é o bom”
Cada qual com sua claque
Antecipando o tom
Do que virá em seguida
À consulta construída
No estilo “ponto-com”
Falando em democracia
Embalam o jogo jogado
Que convém à oligarquia
Mostrando quem é que manda
Tipo “pacta sunt servanda”
Pra seguir na reitoria
Vestida de androcentrismo
Mas tem “gente de atitude”
Que endossa esse clubismo
Dentre estes, feministas
E também antirracistas
Engrossam o favoritismo
Assim como a sindical
Que há anos não dão um pio
Sobre assédio moral
Já entraram no embalo
E assim como num estalo
Deram logo o seu aval
Que o pleito seja indecente
Afinal, dizer amém
É o comum dessa gente
Pouco importam as regras
Desde que haja a entrega
Do voto no seu gerente
Nessa tal de “pré-campanha”
Mas eu já tenho pra mim
Que pouca gente estranha
A máquina sendo usada
De maneira escancarada
Pra garantir a barganha
Na campanha do amigo
Do reitor que está calado
Mas favorece o querido
E não dá explicação
Por quê seu vice em ação
É por ele é preterido?
E ninguém renunciou
Por que mudou o assunto
E não se pronunciou?
É ético o comissionado
Permanecer no “reinado”
Se a confiança cessou?
Favoreceu candidato?
Quem ofertou a jujuba
Pra adoçar esse prato?
Por que não deram a seta
Pro manifesto “Diretas!”
De um negro pré-candidato?
Mas a gente quer saber
Qual o valor da aposta
Que priva eu e você
De ver lisura no pleito
Integridade e respeito
E não esse BBB!?
Ao ver campanha apressada?
Quem preparou essa janta
Pra alienar a moçada?
Pois mesmo sem edital
Já vemos material
Distribuído em jornadas
Ou em festa de Iemanjá
Não perdem um só momento
Para exibir o crachá
De lorde salvacionista
Ao lado de comunistas
Que “sabem como ganhar”
Asseclas e partidários
Mandando seu papo reto
Em tom “revolucionário”
Ditando em quem votar
E querendo nos ensinar
Com seu conto do vigário
Mesmo sem haver registro
Não perdem um só segundo
Pois o que vale é ser visto
E mostrar quem tem poder
Para ninguém mais querer
Tentar se meter com isto
De ilustres signatários
Mistura trigo com joio
Como correligionários
No estilo “já ganhou!”
Exibem-se sem pudor
Neste nefasto cenário
Que, por ser estrutural,
Fratura a comunidade
E isola o marginal
Privado de privilégios
E dos espaços egrégios
De quem decide, afinal
De ter tão fácil acesso?
Se antes das inscrições
Já estão com tudo impresso
Adesivos e panfletos
Bonés, camisas, folhetos
E celebrando o sucesso!?
É para quem tem dinheiro
E com texto demagogo
Se dirige a “companheiros”
Dizendo: “somos iguais”
Sem reconhecer jamais
Quem constrói nossos aceiros
É que um quer retornar
Para um terceiro mandato
No qual vai se encastelar
Perpetuando o comando
E privilégios somando
Neste “toma-lá-dá-cá”
O mesmo grupo está
Na torre fazendo pose
E o osso não quer largar
É como se a oligarquia
Desejasse a monarquia
Para sempre comandar
Que não há democracia
Pois está longe de haver
A tal da isonomia
Entre quem for pleitear
O cargo que agora está
Com o bloco da fidalguia
Já começa com vantagem
Pois sendo autoritária
Vende uma boa imagem
Dizendo-se imprescindível
E mostrando o “alto nível
De experiência e bagagem”
E sabe fazer política
Sua postura é arguta
Mas não suporta a crítica
Favorece as panelinhas
Compõe com as igrejinhas
Que adoram uma aura mítica
Com gente que tem poder
Expõe suas vaidades
Sem precisar se conter
Pois sabe que tem apoio
E sempre exibe o comboio
De quem vai lhe defender
De docentes sem quinhão
Que só tem a ousadia
Como maior galardão
Sabe que chance não tem
Por isso não vai além
Da lamúria sem ação
E tendo capacidade
Além de alguma energia
Pra demandar igualdade
Enfrenta barreiras mil
Pois é grande o desafio
Pra quem não é majestade
Que é preciso mudar
E muitas vezes querendo
Ao menos participar
Se vê tolhida na base
Pois não se trata de fase
Mas de estrutura a quebrar
Descontentes com os pleitos
Mas isso não é à toa
Se dizem: “não mais jeito”
Pois ora é chapa única
Masculina e hegemônica
Depois é acordo desfeito
E do tal personalismo
Mas ficam na superfície
Cultivando o niilismo
Ou na redução de danos
Em meio aos desenganos
Bem à beira do abismo
Pra ver se o esquema muda
Mas a cúpula intercepta
E zomba à boca miúda
Pois eles têm o condão
De nos dizer sim ou não
Com aval de gente graúda
Que, em tese, é da gestão
Também experimentou
Assédio e preterição
Ao tentar se colocar
Como um nome a estrear
No reino do Pai João
Esse tipo de conduta
Ou: “ele foi com arrogo”
Ao se inserir na disputa
“Sem combinar com o Valdez”
Que é quem filma o freguês
E o mostra ao vivo na luta
No seio da Casa Grande
O fato é algo se deu
E está explícito o debande
E é tudo para impedir
Outras vozes de emergir
Ou mesmo que a fila ande
Que o jogo é desigual
Por isso negam conflito
E o sufrágio universal
Sem normas, tudo é possível
E aquilo que é desprezível
Aparenta ser “legal”
Pública e administrativa
Desde que a prioridade
Seja a vitória eletiva
De quem já tem capital
Simbólico e material
Pra “levar na esportiva”
Como eu e outros mais
Que não somos adestrados
E não nos calamos mais
Sabemos que essa disputa
Não tem código de conduta
Que nos trate como iguais
E o jogo nos faz lembrar
Pois sempre que nos impomos
Tentam nos silenciar
Seja pelos próprios pares
Ou pelas vestes talares
Dos que podem nos julgar
Anda de boa no campus
E as vítimas, até então
Vão aos trancos e barrancos
Com algozes na ouvidoria
Brindando com alegria
E dando golpes de flanco
Que por anos se guardou
Agora vem no estêncil
Pra parede do reitor
Com perguntas pertinentes
E denúncias eloquentes
De quem justiça esperou
Que precisam ser revistas
Tem muita gente doente
Buscando especialistas
Mas pra cessar violência
Não basta só consciência
Tem que mudar o avalista
Nos mesmos cargos pra sempre!
Acostumados na proa
E aos gritos indiferentes
Com seus discursos “da hora”
Que não servem de penhora
Pra tranquilizar quem sente
E não ter com quem contar
O horror de já ter sofrido
O isolamento que há
Quando se expõe um fato
E encontra um putrefato
Esquema para abafar
A alternância de poder
Que é princípio relevante
Da República, pode crer
E é espírito democrático
Ético e sinalagmático
E não pode perecer
Ou papo pra boi dormir
Nós agora temos pressa
E não vamos retroagir
8 décadas de vestígio
Supremacia e prestígio
De quem mandou por aqui
Com discursos progressistas
Sempre “recebem convites”
Pra continuar na pista
Com apoio das referências
E em nome das ciências
Ocupam o topo da lista
Isso é apenas discurso?
Negros fora da coxia?
Há quem diga: “isso é luxo”!
Nos querem como eleitores
Quiçá vices dos senhores
Caso haja algum refluxo?
Mostrando as desigualdades
Que as resistências avancem
Contra as iniquidades
Que este modus operandi
Perca a assiduidade
De que não estamos mal
Não é filme de suspense
Pra saber só no final
Essa cena é repetida
E ferra com nossas vidas
Você acha isso normal?
Cordelista
Docente da UFBA
10/02/2026





