Cordelirando...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

VOCÊ ACHA ISSO NORMAL?

 

                                                                                                                                                          Imagem: Google Imagens

É dois mil e vinte e seis
E a UFBA está agitada
Teremos, mais uma, vez
Jogo de cartas marcadas?
Em contexto de disputa
E democracia fajuta
Não dá pra ficar calada
 
A sucessão reitorial
Que, em tese, já começou
Mesmo sem ter edital
Do processo consultor
Expõe os mesmos problemas
E aqueles velhos esquemas
De quem sempre comandou
 
Nas mídias, rádios e redes
Dois homens fazem campanha
Devotos matam a sede
De mostrar quem acompanha
O que outrora foi reitor
E o que nunca pleiteou
Mas vem da mesma entranha
 
Há vídeos de potentados
Entre os simples seguidores
Conhecidos deputados
E até famosos cantores
Recomendando o voto
Como quem ganhou na loto
E retribui com louvores
 
Alguns dizem: “volta, Papi”
Outros gritam: “ele é o bom”
Cada qual com sua claque
Antecipando o tom
Do que virá em seguida
À consulta construída
No estilo “ponto-com”
 
Com seus partidos colados
Falando em democracia
Embalam o jogo jogado
Que convém à oligarquia
Mostrando quem é que manda
Tipo “pacta sunt servanda
Pra seguir na reitoria
 
É a festa da branquitude
Vestida de androcentrismo
Mas tem “gente de atitude”
Que endossa esse clubismo
Dentre estes, feministas
E também antirracistas
Engrossam o favoritismo
 
Liderança estudantil
Assim como a sindical
Que há anos não dão um pio
Sobre assédio moral
Já entraram no embalo
E assim como num estalo
Deram logo o seu aval
 
Pra eles “tá tudo bem”
Que o pleito seja indecente
Afinal, dizer amém
É o comum dessa gente
Pouco importam as regras
Desde que haja a entrega
Do voto no seu gerente
 
Desde outubro é assim
Nessa tal de “pré-campanha”
Mas eu já tenho pra mim
Que pouca gente estranha
A máquina sendo usada
De maneira escancarada
Pra garantir a barganha
 
Pró-reitores engajados
Na campanha do amigo
Do reitor que está calado
Mas favorece o querido
E não dá explicação
Por quê seu vice em ação
É por ele é preterido?
 
Se foram eleitos juntos
E ninguém renunciou
Por que mudou o assunto
E não se pronunciou?
É ético o comissionado
Permanecer no “reinado”
Se a confiança cessou?
  
Por que a página da UFBA
Favoreceu candidato?
Quem ofertou a jujuba
Pra adoçar esse prato?
Por que não deram a seta
Pro manifesto “Diretas!”
De um negro pré-candidato?
 
São perguntas sem resposta
Mas a gente quer saber
Qual o valor da aposta
Que priva eu e você
De ver lisura no pleito
Integridade e respeito
E não esse BBB!?
 
Por que ninguém se espanta
Ao ver campanha apressada?
Quem preparou essa janta
Pra alienar a moçada?
Pois mesmo sem edital
Já vemos material
Distribuído em jornadas
 
Em show de pré-lançamento
Ou em festa de Iemanjá
Não perdem um só momento
Para exibir o crachá
De lorde salvacionista
Ao lado de comunistas
Que “sabem como ganhar”
 
Cada um com seus adeptos
Asseclas e partidários
Mandando seu papo reto
Em tom “revolucionário”
Ditando em quem votar
E querendo nos ensinar
Com seu conto do vigário
 
A campanha está no mundo
Mesmo sem haver registro
Não perdem um só segundo
Pois o que vale é ser visto
E mostrar quem tem poder
Para ninguém mais querer
Tentar se meter com isto
 
 Até carta de apoio
De ilustres signatários
Mistura trigo com joio
Como correligionários
No estilo “já ganhou!”
Exibem-se sem pudor
Neste nefasto cenário
 
E assim a desigualdade
Que, por ser estrutural,
Fratura a comunidade
E isola o marginal
Privado de privilégios
E dos espaços egrégios
De quem decide, afinal
 
Quem de nós tem condições
De ter tão fácil acesso?
Se antes das inscrições
Já estão com tudo impresso
Adesivos e panfletos
Bonés, camisas, folhetos
E celebrando o sucesso!?
 
Isso mostra como o jogo
É para quem tem dinheiro
E com texto demagogo
Se dirige a “companheiros”
Dizendo: “somos iguais”
Sem reconhecer jamais
Quem constrói nossos aceiros
 
E o mais grave, de fato
É que um quer retornar
Para um terceiro mandato
No qual vai se encastelar
Perpetuando o comando
E privilégios somando
Neste “toma-lá-dá-cá”
 
Desde dois mil e quatorze
O mesmo grupo está
Na torre fazendo pose
E o osso não quer largar
É como se a oligarquia
Desejasse a monarquia
Para sempre comandar
 
Por isto ouso dizer
Que não há democracia
Pois está longe de haver
A tal da isonomia
Entre quem for pleitear
O cargo que agora está
Com o bloco da fidalguia
 
A elite universitária
Já começa com vantagem
Pois sendo autoritária
Vende uma boa imagem
Dizendo-se imprescindível
E mostrando o “alto nível
De experiência e bagagem”
 
Em regra, é branca e astuta
E sabe fazer política
Sua postura é arguta
Mas não suporta a crítica
Favorece as panelinhas
Compõe com as igrejinhas
Que adoram uma aura mítica
 
Ostenta suas amizades
Com gente que tem poder
Expõe suas vaidades
Sem precisar se conter
Pois sabe que tem apoio
E sempre exibe o comboio
De quem vai lhe defender
 
Enquanto a periferia
De docentes sem quinhão
Que só tem a ousadia
Como maior galardão
Sabe que chance não tem
Por isso não vai além
Da lamúria sem ação
 
Mesmo sendo maioria
E tendo capacidade
Além de alguma energia
Pra demandar igualdade
Enfrenta barreiras mil
Pois é grande o desafio
Pra quem não é majestade
 
Por isso mesmo sabendo
Que é preciso mudar
E muitas vezes querendo
Ao menos participar
Se vê tolhida na base
Pois não se trata de fase
Mas de estrutura a quebrar
 
São diversas as pessoas
Descontentes com os pleitos
Mas isso não é à toa
Se dizem: “não mais jeito”
Pois ora é chapa única
Masculina e hegemônica
Depois é acordo desfeito
 
Estão fartas da mesmice
E do tal personalismo
Mas ficam na superfície
Cultivando o niilismo
Ou na redução de danos
Em meio aos desenganos
Bem à beira do abismo
 
Alguns lutam por diretas
Pra ver se o esquema muda
Mas a cúpula intercepta
E zomba à boca miúda
Pois eles têm o condão
De nos dizer sim ou não
Com aval de gente graúda
 
E se até o vice-reitor
Que, em tese, é da gestão
Também experimentou
Assédio e preterição
Ao tentar se colocar
Como um nome a estrear
No reino do Pai João
 
Há quem diga: “é do jogo”
Esse tipo de conduta
Ou: “ele foi com arrogo”
Ao se inserir na disputa
“Sem combinar com o Valdez”
Que é quem filma o freguês
E o mostra ao vivo na luta
 
Seja lá o que ocorreu
No seio da Casa Grande
O fato é algo se deu
E está explícito o debande
E é tudo para impedir
Outras vozes de emergir
Ou mesmo que a fila ande
 
Não querem que seja dito
Que o jogo é desigual
Por isso negam conflito
E o sufrágio universal
Sem normas, tudo é possível
E aquilo que é desprezível
Aparenta ser “legal”
 
Foda-se a moralidade!
Pública e administrativa
Desde que a prioridade
Seja a vitória eletiva
De quem já tem capital
Simbólico e material
Pra “levar na esportiva”
 
Pois, de fato, favelados
Como eu e outros mais
Que não somos adestrados
E não nos calamos mais
Sabemos que essa disputa
Não tem código de conduta
Que nos trate como iguais
 
Afinal, igual não somos
E o jogo nos faz lembrar
Pois sempre que nos impomos
Tentam nos silenciar
Seja pelos próprios pares
Ou pelas vestes talares
Dos que podem nos julgar
 
Por isso a perseguição
Anda de boa no campus
E as vítimas, até então
Vão aos trancos e barrancos
Com algozes na ouvidoria
Brindando com alegria
E dando golpes de flanco
 
Por isso que o silêncio
Que por anos se guardou
Agora vem no estêncil
Pra parede do reitor
Com perguntas pertinentes
E denúncias eloquentes
De quem justiça esperou
 
Há muitas coisas pendentes
Que precisam ser revistas
Tem muita gente doente
Buscando especialistas
Mas pra cessar violência
Não basta só consciência
Tem que mudar o avalista
 
Basta das mesmas pessoas
Nos mesmos cargos pra sempre!
Acostumados na proa
E aos gritos indiferentes
Com seus discursos “da hora”
Que não servem de penhora
Pra tranquilizar quem sente
 
A dor de ser perseguido
E não ter com quem contar
O horror de já ter sofrido
O isolamento que há
Quando se expõe um fato
E encontra um putrefato
Esquema para abafar
 
Por isso é importante
A alternância de poder
Que é princípio relevante
Da República, pode crer
E é espírito democrático
Ético e sinalagmático
E não pode perecer
 
O contrário é só conversa
Ou papo pra boi dormir
Nós agora temos pressa
E não vamos retroagir
8 décadas de vestígio
Supremacia e prestígio
De quem mandou por aqui
 
Homens brancos de elite
Com discursos progressistas
Sempre “recebem convites”
Pra continuar na pista
Com apoio das referências
E em nome das ciências
Ocupam o topo da lista
 
Mulheres pra reitoria!
Isso é apenas discurso?
Negros fora da coxia?
Há quem diga: “isso é luxo”!
Nos querem como eleitores
Quiçá vices dos senhores
Caso haja algum refluxo?
 
Que outras chapas se lancem
Mostrando as desigualdades
Que as resistências avancem
Contra as iniquidades
Que este modus operandi
Que interessa ao peixe-grande
Perca a assiduidade
 
Nada e ninguém me convence
De que não estamos mal
Não é filme de suspense
Pra saber só no final
Essa cena é repetida
E ferra com nossas vidas
Você acha isso normal?
 
Salete Maria
Cordelista
Docente da UFBA
10/02/2026

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