Cordelirando...

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sexta-feira, 2 de julho de 2010

O MILAGRE TRAVESTHRILLER:
A HISTÓRIA DA TRAVESTI QUE
(COM FÉ) ENGRAVIDOU

La libertad de la fantasía no es ninguna huida a
la irrealidad; es creación y osadía (Eugène Ionesco)



Subindo a Serra do Horto
Ao som do 'baby pirei'
Com seu olhar absorto
Curtindo seu happy day
Ao lado da comitiva
Desfila ela, a diva
Orgulho da causa gay

De baby-look brilhosa
E mini-saia rendada
Com sua bota estilosa
E a cabeleira dourada
Beijando o seu amor
Ela entoa um louvor
No meio da romeirada

Parando nas Estações
E agradecendo com fé
Balbuciando orações
Cumprimentando Seu Zé
Jogando beijos no ar
Ela acena sem parar
Pra bicha, home e muié

O filme é encenado
Nas ruas de Juá City
O povo tá encantado
Com o tal enredo beat
O roteiro é a história
Da neta de Dona Glória
E filha de Idelzuíte

Trata-se duma promessa
Que Shirley Dayanna fez
Assim a cena começa
Em Dois Mil e Dezesseis
O Milagre Travesthriller
É dirigido por Muller
E fala de gravidez

Shirley está preocupada
Com a vida conjugal
Se sentindo inadequada
Etecétera e coisa e tal
Tudo que ela queria:
Era aumentar a famía,
Como faz todo casal

Pediu para sua anja
Senhora da Conceição
-Eis uma santa que manja
Do tema concepção!-
Mas nada lhe aconteceu
A menstruação desceu
E seu apelo foi vão

Então meio delirante
Shirley de vela na mão
No quarto teve um rompante
Qual uma alucinação
Entendeu que poderia
Conceber como Maria
Sob santa inspiração

Daí rogou ao Senhor
Que enviasse um sinal
Por meio dum protetor
Um ente angelical
Chamado de Gabriel
Gerente dalgum motel
Messenger neonatal

E não cessava de orar
Sempre com muito fervor
Prometendo jejuar
E dizimar com rigor
Mas uma voz estridente
Repetia, renitente:
Não me tente, por favor!

Ela argumentou então:
Eu também tenho direito!
Não fiz catecismo em vão!
Decorei todo o preceito!
Fui crismada, batizada!
Hoje sou mulher casada!
Qual é mesmo o meu defeito?

E a voz, peremptória,
Dizia: Assim não dá...
Você burlou a história
Pra me desmoralizar
Quem já viu um travesti
Pensar que pode parir
Para Eu abençoar?

Vendo que não conseguia
Convencer a Deus do Céu
Lhe ocorreu que poderia
Falar com um bacharel
Pra ele peticionar
Requerer, protocolar
Um write, vulgo créu!

Todavia, infelizmente
Mesmo por muito dinheiro
O doutor mui competente
Conhecido em Juazeiro
Disse que não poderia:
Pois não há cidadania
Para travesti fuleiro

Ela disse: mas Doutor
Seu prestígio pode tudo
Eu lhe pago o que for
Pois confio em seu canudo
Preciso de seu trabalho
Expert em quebra-galho
Me ajude que eu te ajudo

Realmente eu sou o tal
E não quero me gabar
Mas o seu caso é banal
E violação não há
Falta interesse de agir
E eu volto a repetir:
Não há chance de ganhar

Mas tudo que seu birô
Apresenta pro juiz
Ele apõe um ''sim senhor''
-Segundo seu aprendiz-
E quando há recompensa
Tudo quanto é Excelência
Dá o seu... e pede bis

Data vênia, ele disse-
Ab ovo, ipso facto
Erga omnes, sub-vice
Outrossim, pague o pato
Dura lex, sede lex
Isto eu li na Consulex
Se traduzir eu lhe mato!

Shirley diante do não
Em seu cross-fox saiu
Telefonou pra João
E rapidinho seguiu
Para a sede do Galosc
-Se sentindo muito lost-
Ali chegando insistiu:

Eu preciso ter um filho
Para me realizar
Já fui rainha do milho
E também miss Ceará
Já desfilei na fanfarra
Agora chega de farra
Eu quero é amamentar!

Preciso de tua ajuda
De tua compreensão
Por favor não me iluda
Diga logo sim ou não!
E Joãozinho extasiado
Com cara de assustado
Prostrado fez oração:

Minha Santa Lady Gaga!
Virgem Madonna, oh não!
Beyoncé, oh minha fada!
Não rogo por Deus em vão!
Shirley Dayanna, amada
Me tire dessa parada
Não me meta em confusão!

De repente se lembrou
Da velha Dona Da Guia:
Uma prima de seu avô
Parteira da cercania
Que no Mercado Central
Benze e vende enxoval
Vela, santo e agonia

Shirley disse: bate, bicha!
Rodando uma bolsa prata
E girando à largartixa
Mostrou as unhas de gata
Chegando em Dona Da Guia
Sorrindo disse: bom dia!
E a velha danou-lhe a lata

De uma queda foi ao chão!
Mostrando sua calcinha
Ensaiou um palavrão
Mas viu que não lhe convinha
Mordeu seu indicador
E entre dentes gritou:
Ai que ódio, mulherzinha!

Da Guia disse: o que é?
Bicha da cara de lia!
Tu pensa que é muié?
Credincruz, ave maria!
Ói as trêis noite de escuro!
Teu lugar é no monturo!
Vai timbora logo, avia!

Shirley pediu uma imagem
De Padim Ciço Romão:
Quero render homenagem
E pedir sua benção
Será que ele me entende?
E meu desejo atende?
Me dando um bucho, ou não?

A velha empalideceu
E suando frio caiu
Um homem disse: morreu!
Shirley Dayanna fugiu
Foi pra casa duma amiga
Feminista entendida
Que assim lhe advertiu:

Shirley, você tá pirada
Perdeu a noção de tudo
Deixe dessa palhaçada
Deus pra você está mudo
E o Padre Ciço Romão
Não lhe dará atenção
Tudo isso é absurdo!

Para que engravidar?
Nestes tempos pós-modernos!
Todas querem abortar!
Leia aqui nos meus cadernos!
Quando eu penso que vocês
São as radicais da vez...
Defendem mitos eternos

Já que quer ser genitora
Porque não faz adoção?
Hoje a lei é promissora
Basta uma petição...
Minha filha, se oriente
Seja mulher diferente
Deixe de esculhambação

Shirley disse: queridinha
É meu desejo e pronto!
Você já ta passadinha
Mas eu inda tô no ponto
Vê se me ajuda a viver
Chega de teretetê
Me deixe ler este conto!

Então Shirley arrancou
Um livro de uma estante
E a feminista ficou
Pálida naquela instante
Era um texto de magia
Carregado de heresia
Uma peça alucinante

As Bichas Madres de Aurora?
Não é possível, menina!
Eis a caixa de Pandora!
Isso muda minha sina!
Tenho que levar pra casa!
É hoje que eu crio asa,
Peito, bunda e vagina!

O livro é baseado
No Segredo das Raimundas
Um grupo organizado
De beatas moribundas
Que no século dezenove
Praticavam meia-nove
Dentro duma catatumba

Eram cinco travestis
Que viviam no sertão
E viraram colibris
Depois duma maldição
Pois com o poder da mente
Foram mães precocemente
Hoje são assombração

Raimundas se travestiam
Em noite de lua cheia
E pelas ruas saíam
Uivando como sereias
E dentro dum cemitério
Ali se dava o mistério
Que todo corpo incendeia

Fingiam-se de beatas
Para vestido usar
Mas, às vezes, de gravatas
Iam pra missa rezar
E depois da cerimônia
Perdiam toda a vergonha
E transavam sem parar

E para encher de cores
As vestes tradicionais
Elas chupavam as flores
Dos altares principais
Colorindo suas bocas
E ficando muito loucas
Para os grandes bacanais

Porém uma destas cenas
A população flagrou
E a dança da macarena
Que o grupo reinventou
Irritou a Dona Helena
Que sem ter dó e nem pena
Uma a uma matou

Mas na cauda de Bisonho
Elas deixaram um segredo
Que através de um sonho
Aprenderam muito cedo
Dizia: Pra ser feliz
Ouça o que o coração diz
E nunca mais tenha medo!

Sentada dentro do carro
Com olhos arregalados
Shirley fumou um cigarro
Apreciando o babado
Parecia onipotente
Criando em sua mente
Um insight arretado

Lendo fervorosamente
Logo tudo entendeu
O poder do inconsciente!
E todo seu apogeu
Viu que para engravidar
Bastava ela imaginar
E assim lhe ocorreu

Sorriu genuinamente
Para as deidades fiéis
Sentindo estranhamente
Da cabeça até os pés
Transformação corporal
- Algo sobrenatural! -
E assim contou até dez

Um: estou engravidada!
Dois: Isto é fenomenal!
Três: Me sinto iluminada!
Quatro: Hoje é natal!
Cinco: Viva a putaria!
Seis: Tô cheia de energia!
Sete: Benedito pau!

Oito: Tudo é permitido!
Nove: Eu quero voar!
Dez! Ouviu-se um estampido
E algo estranho no ar
Shirley estava flutuando
Sobre a cidade pairando
E a multidão a olhar

Assim se deu o milagre
Travesthriller sensual
E cachaça com vinagre
Foi a poção magical
Shirley Dayanna feliz
Foi à missa da matriz
Numa entrada triunfal

Desceu as ruas do centro
E o povo todo aplaudindo
Ela sentia por dentro
O menino se bulindo
Era sua apoteose
Nem lembrava da neurose
Que antes vinha sentindo

A notícia se espalhou
Como água na ladeira
Shirley mal engravidou
E o boato já na feira
Todo mundo interessado
No novo mito gerado
Nesta terra milagreira

Virou capa de jornal
Da Palmeirinha ao Sudão
Na mídia internacional
Rádio e televisão
Até o Barack Obama
Enviou um telegrama
Festejando a ocasião

O prefeito da cidade
Mandou congratulações
Mais de mil autoridades
Fizeram bajulações
Ouviu-se o bispo dizendo
Que o feito era tremendo
Digno de celebrações

A gravidez mais falada
Desta era milenar
Muita tese elaborada
Tentando tudo explicar
Cafuçu fazendo intriga
Falando mal da amiga
Mas querendo o seu lugar

A vovó Idelzuíte
Fofa, paba e orgulhosa
Curada da homofobite
Gritava cheia de prosa
Dizendo: é minha filha!
Eita bicha maravilha,
Santa, linda e corajosa!

A bisavó, Dona Glória
Beata só cem por cento
Espalhou logo a história
Que Shirley era anjo bento
E que sempre foi mulher
Por isso Deus é quem quer
Que ela tenha um rebento!

Sendo o fato destacado
Em nível internacional
Ninguém falou em pecado
Tudo era sensacional
O objetivo agora
Era contar a história
Com viés episcopal

Atribuíram o feito
Ao Patriarca Maior
Que se remexeu no leito
Onde voltamos ao pó
E sob o slogan 'Pra Frente':
Fez-se a marcha-penitente:
Shirley, você não tá só!

Com todo este alvoroço
De notícia alvissareira
Foi marcado um almoço
Pra traveca parideira
Onde a cúpula do poder
Deseja escolher
Um nome para a herdeira

Mas Shirley disse baixinho:
Não quero saber o sexo
Meu bebê tem meu carinho
Este será nosso nexo
Humano fundamental
Sem padrão inaugural
Pois todo ser é complexo!

Dentre os vários convidados
Seus amigos mais queridos
Todos muito emocionados
Falaram ao pé do ouvido:
Shirley, você arrasou!
Fez escola, inaugurou!
Tudo agora faz sentido!

Uma revista propôs
Que Shirley nua posasse
Mas sua família impôs
Que ela muito cobrasse
Mas ela assim decidiu:
Só poso pra Globo-news
Ou então para Prima Facie

Porém ficou combinado
Que um curta seria feito
Nada de muito parado
Tudo com muito efeito
Livre manifestação!
E muita demonstração
De bunda, perna e peito

Seria tudo filmado
Registrado com requinte
Tudo muito organizado
Nada de século XX
A cidade em polvorosa
Totalmente vaidosa
Da bichona ex-acinte

Diversos comerciantes
Quiseram patrocinar
Muitos eram confiantes
No filão que ia dar
Tinha até cordelista
Querendo ter uma pista
Do filme para narrar

Foi uma equipe tremenda
Pra trabalhar no local
Pois para narrar a lenda
Só mesmo profissional
Designer-maquiador
Roteirista e diretor
Tudo homossexual

Rosa Barros fez questão
Enquanto cinegrafista
De antes da gravação
Tentar fazer uma lista
De bicha, traveca e bofe
Para um belo making of
Ou tape alternativista

Pensava num musical
Em estilo procissão
Beat e banda cabaçal
Numa perfeita fusão
Bendito e música pop
Dancing-gay pra dar ibope
E muita vela na mão

Entre os artistas cotados
Alguns muito especiais
Todos muito devotados
Às temáticas marginais:
Jânio, Mano e André
Mauro, Sílvio e Dedé
Joaquina e outras mais

Até que chegou o dia
Da primeira encenação
Em Juá só alegria
Muita cor e emoção
O set foi preparado
Todo mundo maquiado
Câmera, luz e ação:

De braços dados com Eike
-Seu Reinaldo Gianecchine-
Ela caprichou no make
Para o evento sublime
Poderosa e retumbante
Estrela, mãe e amante
Adentrou a limousine

As fofoqueiras do mundo
Todas presentes no ato
Muitas querendo, no fundo
Protagonizar o fato
Procurando um defeito
Uma disse desse jeito:
Shirley tem cara de rato!

Uma pessoa gritou:
Silêncio, maleducados!
Ali passava um andor
E caminhões enfeitados
E na banca de cordel
Vídeo e cd a granel
Em rosários pendurados

Assim é o Juazeiro
Do Padim Ciço Romão
Onde tem muito romeiro
Muita fé e oração
Bodega pra todo lado
E véio amancebado
Que chora e pede perdão

É dia 20 do mês
São seis horas da manhã
Com uma saia xadrez
E uma blusa de lã
Na calçada do Socorro
Ela grita: eu mato e corro!
É Zefa doida, anciã

Agarrada numa rosa
Com um envelope na mão
Um tanto quanto nervosa
Repetindo uma oração
Está uma rapariga
Imune a qualquer intriga
Pedindo sua benção

Gente que só formigueiro
Vendo a cidade crescer
Circula muito dinheiro
-Pois tudo é pra vender-
Um misto de drama e fé
Na terra onde Shirley quer
Vê seu herdeiro nascer

Travesthriller objetiva
Mostrar a diversidade
E também relativiza
Toda impossibilidade
Põe a imaginação
Pra cair em tentação
E colorir a cidade

O filme-cordel é isto:
Absurdo teatrado!
Escrito pra ser malvisto
Quiçá mal interpretado
A nossa proposta é esta:
-Ambiciosa e modesta-
Subverter o pecado!

Nossa cena derradeira
Mostra um clip do lugar:
Que vista mais altaneira!
Vale a pena visitar!
Há um bar muito vistoso,
O História de Trancoso
Nos encontramos por lá!

Aqui termino meu texto
Não sem antes dedicar
A Orlando, meu pretexto,
Que me propôs versejar
Sobre uma travesti
Que vive, ama e sorri
E nos ensina a sonhar.

Autora: Salete Maria

Post Script:

As fontes bibliográficas?
É simples, amigo meu...
São as histórias fantásticas
Que a vida me ofereceu
De bêbo, puta e doutor
Beato e embolador
Viado, índio e ateu!

Terra, 10/06/2010

domingo, 8 de novembro de 2009

Extra! Extra!

Sai mais uma edição dos cordéis "Dia do Orgulho Gay" e "Do Direito de Ser Gay ou Condenando a Homofobia".Trata-se da contribuição político-poética de Salete Maria para o combate à homofobia. Desta feita, os cordéis estão sendo publicados pela ong Galosc, mediante algumas parcerias.

Confira abaixo:

Do Direito de Ser Gay ou condenando a Homofobia


Diante do Tribunal
Zeca expôs a questão:
“Sou um homossexual
E peço vossa atenção
O que deve ser julgado
E d’uma vez extirpado
É o ódio; o amor, não!

Não está em discussão
A minha intimidade
Aqui a acusação
Pesa contra a insanidade
De quem ousa decretar
Que é proibido amar
Invocando a divindade

Meu direito de ser gay
Não me pode ser negado
Pois não ajo contra a lei
Quando ouso ser amado
Por alguém do mesmo sexo
Por mais que seja complexo
Esquisito ou estranhado

Sou eu, pois, um cidadão
Que trabalha e contribui
Com esta grande nação
E que dela não se exclui
Mereço todo o respeito
Sou sujeito de direito
Que avança e evolui

O que temos que julgar
É a tal da homofobia
Que está a provocar
Mortes pela cercania
Privando gente decente
De viver alegremente
Entre nós, em harmonia

Não podemos conceber
Que a injustiça impere
Temos que nos envolver
Pois toda morte nos fere
Todo gay é ser humano
Todo ser é nosso “hermano”
Se pensa assim, não tolere

Não seja condescendente
Cúmplice ou co-autor
Muito menos conivente
Com tais atos de horror
Se você tem consciência
Denuncie a violência
Seja lá contra quem for

Não me chame de demente
Anormal ou acintoso
Nem tampouco de indecente
Pecador ou monstruoso
Ouse atacar injustiças
Reveja suas premissas
Não sou eu o criminoso!

O que há de errado em mim?
E que você não suporta?
Tente escrever outro fim
Para a velha história torta
Um defensor de direito
Não dormirá satisfeito
Omisso, fechando a porta!

A diferença existe
Não adiante negar
Pra que este dedo em riste
Sempre a me apontar?!
Vá julgando a minha vida
E escondendo a ferida
Que tu não ousas curar!

Em toda a Humanidade
Houve gente como eu
Vítima da iniqüidade
Quanto inocente morreu!
Em nome de um modelo
Que sempre imprimiu um selo
Separando tu e eu

Foi assim com outros seres
Igualmente “diferentes”
Ante os “podres poderes”
Continuaram silentes?
Mulheres, negros, judeus
Anciãos, crentes, ateus
São todos eles doentes?

Suplico, reflitam mais
Sobre vossas posições
Examinem os anais
Das vossas “convicções”
Vejam que todos perdemos
Que Justiça defendemos
Admitindo exceções?

Repito: eu sou um gay
Veado, homossexual!
Sou eu um fora-da-lei?
Delinqüente, marginal?
Tenho direito a viver?
Ou minha sina é morrer
Sob a lâmina d'um punhal?

Digam, senhores jurados,
E povo da minha terra!
Quem deve ser condenado?
É este que aqui vos berra?
Ou a tal da homofobia?
Que mata à luz do dia
Vai à missa, ora e enterra?

Eu quero finalizar
Pedindo para os doutores
Comecem a se indagar
Olhem-se nos corredores
Quem não conhece um gay?
São todos foras da lei?
Ou há algum entre os senhores?

Quem nunca teve um colega
Quem sabe até um parente
Aquele a quem você nega
O direito de ser gente
De existir, ser feliz
Ser dono do seu nariz
E levar a vida contente?

Vamos, pensem um segundo!
Antes do seu veredito
Quem aqui criou o mundo?
E tudo o que “está escrito”?
Não é este o argumento?
Que lhes serve de cimento
Sobre o que tenho dito?

Deixo agora com vocês
O direito de julgar
Não é mais a minha vez
Fale quem quiser falar
Condenada a homofobia
Quem sabe por mais um dia
Muitos possam respirar

Sendo ela absolvida
Certamente ouvirão
Dizer que mais uma vida
Foi ceifada no sertão
E também no litoral
Onde gay não é igual
A qualquer um cidadão

Data vênia, meus senhores
Mas isto é covardia
Onde eu for, onde tu fores
Sempre dor e agonia
Ponham um ponto final
Sou um homossexual
Tenho direito ao meu dia!

Dia do Orgulho Gay


“Época triste a nossa em que é mais difícil quebrar um preconceito que um átomo”(Einstein)

No vinte e oito de junho
- Dia do Orgulho gay -
O mundo dá testemunho
Do que não nasce por lei:
É um dia diferente
A rua enche de gente
O marginal vira rei

Tudo fica colorido
A vida enche de graça
Há riso, grito, gemido
Gente se amando na praça
Mas nem sempre foi assim
O vinte e oito, enfim
Surgiu em meio a desgraça

Conta a história, diz Mott
Que um tumulto ocorreu
Num bairro de Nova York
E muita gente envolveu
Stone Wall era o bar
Que à paisana, ao chegar
A polícia enlouqueceu

Ao todo nove soldados
Ali duzentos fregueses
Os donos foram algemados
E espancado, por vezes
Renderam três travestis
Puseram-nas vis-a-vis
Trataram-nas como rêses

Mandaram todos embora
E humilharam os detentos
Mas encontraram lá fora
Os seres mais violentos
O povo enfurecido
Num coro mais que atrevido
Exigiram dos sargentos:

“Libertem estes rapazes
Ninguém aqui é bandido
Saiam, pois somos capazes
Dum protesto decidido
Homossexual é gente
Desumana é a mente
De quem espanca ‘entendido’

Quase uma hora de atrito
No ano sessenta e nove
A polícia com apito
Tudo por causa dum ‘love’
O Estado achando demais
Amor de homossexuais -
Só de lembrar me comove

Surgiu ali o embrião
Duma data mundial
Virou comemoração
Qual a noite de natal
Agora no interior
Tem até vereador
Pelo gay municipal

Esse é o dia de orgulho
De quem sofre a opressão
Dia de muito barulho
E de grande agitação
De bandeira colorida
Para celebrar a vida
O amor e a paixão

Dia de dizer ao mundo:
Respeite a diversidade!
Abaixo o ódio imundo
Basta de mediocridade
A Humanidade é
O gay, o padre, a mulher
Homem de terceira idade

A data exige de todos
Mais amor, mais tolerância
Propõe o fim dos engodos
Exige mais segurança
Direito e democracia
Sossego, cidadania
Respeito e esperança

Por isto no Cariri
Onde tudo nos fascina
Onde a flor de pequi
Desabrocha e nos ensina
O gay tem que se afirmar
Organizado, lutar
Contra a morte como sina

É dever de toda gente
Combater o preconceito
Quem se julgar consciente
Quem quer exigir direito
Jonatan Kiss foi assim
Amou e viveu, enfim
Conquistou nosso respeito!

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Semana do Orgulho Gay!

“Época triste a nossa em que é mais difícil quebrar um preconceito que um átomo”(Einstein)

No vinte e oito de junho
Dia do Orgulho gay
O mundo dá testemunho
Do que não nasce por lei
É um dia diferente
A rua enche de gente
O marginal vira rei

Tudo fica colorido
A vida enche de graça
Há riso, grito, gemido
Gente amando na praça
Mas nem sempre foi assim
O vinte e oito, enfim
Surgiu em meio a desgraça


Conta a história, diz Mott
Que um tumulto ocorreu
Num bairro de Nova York
E muita gente envolveu
Stone Wall era o bar
Que à paisana, ao chegar
A polícia enlouqueceu

Ao todo nove soldados
Ali duzentos fregueses
Os donos foram algemados
E espancado, por vezes
Renderam três travestis
Puseram-nas vis-a-vis
Trataram-nas como reses

Mandaram todos embora
E humilharam os detentos
Mas encontraram lá fora
Os seres mais violentos
O povo enfurecido
Num coro mais que atrevido
Exigiram dos sargentos:

“Libertem estes rapazes
Ninguém aqui é bandido
Saiam, pois somos capazes
Dum protesto decidido
Homossexual é gente
Desumana é a mente
De quem espanca ‘entendido’

Quase uma hora de atrito
No ano sessenta e nove
A polícia com apito
Tudo por causa dum ‘love’
O Estado achando demais
Amor de homossexuais -
Só de lembrar me comove

Surgiu ali o embrião
Duma data mundial
Virou comemoração
Qual a noite de natal
Agora no interior
Tem até vereador
Pelo gay municipal

Esse é o dia de orgulho
De quem sofre a opressão
Dia de muito barulho
E de grande agitação
De bandeira colorida
Para celebrar a vida
O amor e a paixão

Dia de dizer ao mundo:
Respeite a diversidade!
Abaixo o ódio imundo
Basta de mediocridade
A Humanidade é
O gay, o padre, a mulher
Homem de terceira idade

A data exige de todos
Mais amor, mais tolerância
Propõe o fim dos engodos
Exige mais segurança
Direito e democracia
Sossego, cidadania
Respeito e esperança

Por isto no Cariri
Onde tudo nos fascina
Onde a flor de pequi
Desabrocha e nos ensina
O gay tem que se afirmar
Organizado, lutar
Contra a morte como sina

É dever de toda gente
Combater o preconceito
Quem se julgar consciente
Quem quer exigir direito
Jonatan Kiss foi assim
Amou e viveu, enfim
Conquistou nosso respeito!
Leia e/ou escute, também, neste blog, os cordéis DO DIREITO DE SER GAY, O GRITO DOS 'MAU' ENTENDIDOS, A HISTORIA DE JOCA E JUAREZ,LESBECAUSE e MARIA,HELENA. E também a entrevista para o site UM OUTROOLHAR. São os cordéis de Salete Maria em prol da emancipação das pessoas.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Maria, Helena

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Intercalando um bendito
Com leituras do meu ser
Tirei do dito o não-dito
Fiz a reza estremecer
Acordei fiz um cordel
Tatuando num papel
Um romance pererê

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Fui montando minha peça
Pra Orlando encabeçar
Vai trazer prazer à beça
Pro povo do Ceará
Não tem príncipe encantado
Nem cawboy gay potentado
Mas tem beata a gozar

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Se este não é seu lema
Não se perca no dilema
Vá pra outra frequesia)

Maria amando Helena?
Helena amando Maria?
Numa casinha pequena?
No pingo do meio-dia?
Maria amando Helena?
Helena amando Maria?
Quem as imaginaria?

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Ajeite logo a antena
Não posso perder a cena
Grita Dona Maresia)

Maria, amada de Helena
Helena, amor de Maria
Veja que belo poema
Cheio de luz e magia
Inspira-me este tema
Quero levar pro cinema
De arte da cercania

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Tragam-me uma algema
Eis o meu estratagema
Pra cuspir na burguesia)

Maria e sua Helena
Nasceram neste lugar
Na Baixa da Siriema
Perto do Rio Quicuncá
Os mais velhos dizem delas:
“São duas moças donzelas,
Fale quem quiser falar”

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Tire do ovo a gema
Bote na clara um trema
Arribe, vá pra Bahia)

Maria é meio calada
Vive da agricultura
Helena tange a boiada
E também faz escultura
As duas são benzedeiras
Nordestinas, brasileiras
Força, fé e formosura

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
(Ufa, cadê meu esquema?
Tô perdendo a energia)

Maria que é (de) Helena
Helena que é (de) Maria
Ninguém aqui as condena
-assim falou minha tia -
“Uma é fulô de açucena
A outra, bela morena”
As duas têm empatia

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Pegue logo o castiçal
Uma vela não faz mal
Para afastar heresia)

Helena ajuda Maria
No seu plantio de feijão
A ela faz companhia
Nalguma renovação
Só andam emparelhadas
Nas noites enluaradas
Deste querido torrão

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Eu nunca mais vi Moema
Trepada numa jurema
Querendo dá agonia)

Maria que é devota
Do Padim Ciço Romão
Um dia já foi cambota
Conforme a explicação
Sua mãe fez um pedido
E sendo ele atendido
A graça se fez, então

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Com suas pernas perfeitas
Maria vive a orar
Anda sempre satisfeita
Todo ano a jejuar
Nos dias vinte do mês
Tira o vestido xadrez
Põe preto no seu lugar

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Helena que aprecia
As festas de apartação
Sempre leva a “novia”
Lá para a Exposição
Lembra com voz embargada
De quando montou Pintada
Numa noite de São João

Helena ama Maria
Maria ama Helena
Não é Mundo de Sofia
Nem é novela chilena
É romance sub-urbano
Latino-americano
Folk-love em quarentena

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Maria vive pra Helena
Helena só pra Maria
Maria diz “ô Helena”
Helena diz “oi Maria”
“Vem aqui de junto d’eu
Presente que Deus me deu
Minha bela estrela guia”

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Helena diz a Maria:
“Tu é que nem vaga-lume
Por onde anda alumia
Do piso inté o cume
Tu só me dá alegria
Por ti mil vez eu faria
A Antõe Cruize ciúme”

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

As duas levam a vida
Agradecidas demais
Quando não estão na lida
Estão celebrando a paz
Já diz o velho ditado
“o que é bom ta guardado”
Só as entende quem faz.

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Sei que Maria é Helena
E que Helena é Maria
E se Maria ama Helena
Também Helena a Maria
Mais uma vez a novena
E tudo se concatena
Pão nosso de cada dia!

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O GRITO DOS "MAU" ENTENDIDOS

Era uma assembléia
Só de homossexuais
Era geral a geléia
Havia gente demais
O discurso era polido
Todo mundo era entendido
Nas ciências sociais

Chegou a televisão
E o jornal foi chamado
Não podia ser em vão
(Que evento do babado!)
O roxo e o rosa-choque
Prometiam dar ibope
(gay adora ser filmado)

Algo cultural rolava
Antes da programação
Chico César animava
Com uma bela canção
Logo se comprometeu:
“Esse homem nu sou eu”
-olhos de contemplação!-

Disse ainda sem pudor:
“eu já fui mulher, eu sei”
Vitor Fasano gritou:
“Eu to gostando, meu rei”
Pepeu Gomes aplaudindo:
“Já fui homem feminino,
Fiz escola, inaugurei...”

Cássia Eller convidada
Cantou exibindo a teta
Uma garota excitada
Pedia outra faceta
De repente o som parou
Ângela Ro Rô chegou:
“porrada ou um som porreta?”

Quando recitou Bethânia
A turma ficou ligada:
“quando você me entendeu
Eu não entendia nada”
Calcanhoto, seu recado:
“transito entre dois lados”
É verdadeira cantada.

Um amor tão delicado
Nenhum homem (lhe) daria
“Caetano tá enganado"
Grita João, brada Maria
Neste evento inusitado
Não há como ser lembrado
Se não for por alegria

Os crachás distribuídos
As teses por todo lado
Líderes já escolhidos
Para um debate animado
O “dignidade já!”
Era a senha pra entrar
Bastava ser delegado

A imprensa esperava
Um “furo” para mostrar
Mas ao passo que falava
Gabeira entrava no ar
Politizou o debate
E lançou um xeque-mate:
“gay também sabe votar”

Disse ele: “hoje eu sei
E o Brasil precisa ver
Que o movimento gay
Existe e é pra valer
Pra bater no preconceito
Pra lutar pelo direito
De amar e de viver!

O entendido precisa
Também se organizar
Tem de vestir a camisa
(de Vênus, é bom lembrar)
Neste mundo desigual
Quem for homossexual
Também precisa lutar!

É grande o preconceito
Contra o homossexual
Exijamos mais respeito
Da lei e do tribunal
Imposto também pagamos
Basta! Já não toleramos
A pecha de marginal

A violência também
Precisa ser combatida
Não é dado a ninguém
Manipular nossa vida
Ele ou ela, não importa
Se fulaninha “é morta”
Que seja uma morta-viva!

AIDS e DST’s
Assolam nosso habitat
Vamos fundar comitês
E contra elas lutar
Vamos junto com o povo
Construir um mundo novo
Onde o lema seja amar”

Ouvindo tudo calado
Um homem ficou de pé
Na roupa tinha um bordado
Escrito: “Jesus me quer”
Gabeira disse: você
Tem algo a nos dizer?
E ele: meu nome é Dé!

O povo todo aplaudiu
E ele continuou
Confessou usar “renew”
E disse: “sou o que sou,
“E venho de uma terra
Onde um padre, numa serra
Um dia me abençoou”

Ele invocou São Francisco:
“é dando que se recebe”
E elogiou Corisco:
“Mas Dadá é o que se pede”
E disse, sem preconceito:
“O rio só corre no leito,
Enquanto a margem não cede”

“Falsa é a sociedade
Que nos cospe e abomina
Eu lhes digo, em verdade
Ser ‘alegre’ é minha sina
Se um dia nasci homem,
Mesmo que tudo me tomem
Eu sempre quis ser menina”

“Por que não amaldiçoam
Os governos de opressão?
Por que só de nós caçoam
Diante da multidão?
O povo tem que entender
Porque o gay pode ser
Seu primo, pai ou irmão”

Ademais eu vou falar
-escute amigo meu-
“se o povo de Quixa(dá)
E se também Ama(deu)
Se o povo do Su(dão)
Ta(deu) para seu irmão
Por que não posso dar eu?”

E o debate seguiu
Num nível sempre elevado
Uma garota pediu
Que o tempo fosse marcado
Após as resoluções
Serviram as refeições
E um filme foi mostrado

Foi Aimeé e Jaguar
O filme que se exibiu
Um romance pra lembrar
Até o mês de abril
Quando o povo então verá
Os “mauditos” do Juá
Gritarem para o Brasil

O grito de que se fala
É o do “mau” entendido
Aquele que o mundo cala
Tal qual o mal resolvido
Pois o grito que escutei
Não foi o “ai, eu gozei!”
Foi o grito do oprimido

E para finalizar
Confesso que acordei
Fiquei então a pensar
Naquilo com que sonhei
É bom que não fique torto
O grito do povo morto
Eu só psicografei.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

A HISTÓRIA DE JOCA E JUAREZ


“Toda maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor valerá”.
(Caetano Veloso e Milton Nascimento)


Juarez era um senhor
Devoto do meu padim
Trabalhava com ardor
Cultivando seu jardim
“um dia o cão atentô”
E Juarez se apaixonou
Por Joca de Manezim!

Isso se deu em meados
De mil novecentos e seis
Naquele tempo veado
Era bicho que Deus fez
“home não ama ôtro home
Senão vira Lobisomem”
Disse o padre, certa vez

O tal Joca era um rapaz
Zabumbeiro de primeira
Era um tocador capaz
De agradar moça solteira
Mas também ele gamou
Por Juarez se apaixonou
Quando o viu na ribanceira.

O Juarez, que moço bom!
Honesto e temente a Deus
Tinha mesmo aquele dom
De estar junto dos seus
Porém Joca despertava
Algo que o incomodava
Mais profano que os ateus

Orava dias a fio
Pedindo a Deus proteção
Não chiava nem um pio
Sobre a sua condição
Sentia até arrepio
Um sentimento sombrio
Domava seu coração

Dizia: “Deus me ilumine
Não sei o que há comigo
Creio que já imagine
Que amo o meu amigo
Por favor me examine
Preciso que me vacine
Me livre deste castigo!”

Foi um dia à sacristia
Querendo se confessar
Mas o pobre não sabia
Que o padre ia viajar
Falar com os fazendeiros
Combinar com os cangaceiros
Franco Rabelo expulsar.

Pra você vou alembrar:
Romão era conselheiro
Vivendo a orientar
Beatos e bandoleiros.
Apesar da seca forte
O milagre fez suporte
Que atraía os romeiros.

Disse ele: “Meu padim
O senhor tá avexado?
Mas me dê cá um tempim
P’eu lhe contar um babado
Sabe Joca Manezim?
Despertou algo em mim
E por ele estou gamado.”

Padim Ciço extasiado
Ficou teso, branco e mudo
Olhou o seu afilhado
Comentando o absurdo
“meu filho esqueça disso
Largue logo desse viço
Saia já desse chafurdo!”

“Isso é a tentação
Você precisa rezar
Peça logo a Deus perdão
Tire moça pra casar
Veja Sodoma e Gomorra
O castigo contra a zorra
Outra vez pode se dar”.

"Ademais eu advirto
E esclareço a você
Em assunto desse tipo
Nada posso lhe dizer
É tema que não me meto
E com o devido respeito
Eu não me deixo meter."

“Reverendo acredite
Meu amor é tão sincero
Pela deusa Afrodite
Joca é tudo que mais quero
Tenho padecido tanto
Por viver esse encanto
Pelo homem que eu paquero”.

O vigário apressado
Disse: “Estou de saída
Nesse papo endiabrado
Não encontrarás guarida
Vá plantar o seu roçado
Deixe essa história de lado
Que eu já estou de partida”

Juarez desapontado
Dirigiu-se à Matriz
Avistou Joca sentado
Ao lado de Meretriz,
Uma amiga rapariga
Que amava outra amiga
Que no circo era atriz.

Disse ele: “Caro Joca
Venho do confessionário
Procurei sair da toca
Contei tudo ao vigário
Sobre a nossa condição
Nosso amor, nossa paixão
É triste nosso calvário.

Padim Ciço condenou
Esse ‘amor entre iguais’
Ele me aconselhou
A trabalhar muito mais
Esquecer tal relação
Procurar outra união
Pois esta não me apraz.”

Meretriz falou e disse,
Se metendo na questão:
“tudo isso é tolice
Esse padre é um machão
Pois ordena a Escritura
Para cada criatura
Amar semelhante irmão.”

“O padre tá atrasado
Na sua concepção
Para casos de viado
Tem atualização
Que tal fazer um mestrado
Homossexualizado
Com o São Sebastião?”

"Meretriz é isso aí
-disse Joca veemente-
Vejo que no Cariri
Você lançou a semente
Vou falar com este padre
Chamar ele de ‘cumadre’
P’rele respeitar a gente."

Enquanto isso na feira
Pote, cabaça, quartinha
Chinelo, terço, peneira,
Cordel, reisado, lapinha
Entorno toda cultura
P’ruma fé cega e segura
Aquele amor não convinha.

Envolto neste cenário
Joca fitou o Juarez
Um sentimento lendário
Instalou-se de uma vez
E tudo ficou sagrado
Como algo consagrado
Qual um anjo que se fez

Naquela apoteose
Tudo, então, se revelou
Fez-se a metamorfose
Deste proibido amor
Do casulo à borboleta
Emanou d’uma trombeta
Um som que glorificou.

O amor é grande laço
O amor é armadilha
O amor não tem compasso
O amor não segue trilhas
O amor não se condena.
Todo amor vale a pena
Salve quem ama e brilha!

O povo de Juazeiro
Comentava, maldizendo
Foi, então, cada romeiro
Procurar o reverendo
Para que interviesse
E fizesse uma prece
P’ro que tava acontecendo.

Acendido o preconceito
Foi difícil apagar
Apesar do seu conceito
Nunca quis discriminar
Chamou a população
Para ouvir no seu sermão
O que tinha a comentar.

O sacristão trouxe a vela
A beata trouxe o vinho
Meretriz sempre tão bela
Foi chegando de mansinho
Com Floro Bartolomeu
Que era um amigo seu
A quem falou bem baixinho:

“Floro, ouça este pedido
Que tenho a lhe fazer
O Joca está fudido
Juarez pensa em morrer
Suba lá e diga ao padre
Que faça sua vontade
Deixe o amor acontecer...

Além disso é dever
Dos que proclamam a fé
Nenhum ser desmerecer
Seja homem ou mulher
O amor é unissex
Dura Lex, sede Lex
Mais tarde dirá Tom Zé."

Assombrado e relutante
Floro disse: “tenho medo”
Meretriz disse gritante:
"Pois contarei seu segredo"
Ele disse: "sendo assim
Deixe isso para mim
Resolvo tudo, tão cedo!"

Pressionado e sem saída
Subiu Floro no altar
Com sua saia comprida
O padre veio de lá
A multidão moralista
Falsa como uma ametista
Ansiosa a esperar.

Floro foi ao reverendo
Cochichou ao seu ouvido
O padre enrubescendo
Disse: “atendo ao pedido!”
E a missa começou
Mas o padre não falou
Sobre o tema pretendido.

Falava ele de tudo
Menos sobre o coito gay
Juarez assistia mudo
Joca parecia um rei
Sentiam-se justiçados
Com Floro e o Padre acuados
Meretriz fazia a lei

Após o “ide em paz”
O povo se recolheu
Ao cabaré de Lilás
Foi Floro Bartolomeu
Meretriz com seu cartaz
Joca, Juarez e um rapaz
Enfim, o amor se deu.

Para época em questão
O ocorrido era novo
Foi alvo de agitação
Entre as pessoas do povo
Mas Floro Bartolomeu
Com o poder que recebeu
Tornou comum como um ovo.

sábado, 14 de junho de 2008

DIA DO ORGULHO GAY



“Época triste a nossa em que é mais difícil quebrar um preconceito que um átomo”(Einstein)

No vinte e oito de junho
Dia do Orgulho gay
O mundo dá testemunho
Do que não nasce por lei
É um dia diferente
A rua enche de gente
O marginal vira rei

Tudo fica colorido
A vida enche de graça
Há riso, grito, gemido
Gente amando na praça
Mas nem sempre foi assim
O vinte e oito, enfim
Surgiu em meio a desgraça


Conta a história, diz Mott
Que um tumulto ocorreu
Num bairro de Nova York
E muita gente envolveu
Stone Wall era o bar
Que à paisana, ao chegar
A polícia enlouqueceu

Ao todo nove soldados
Ali duzentos fregueses
Os donos foram algemados
E espancado, por vezes
Renderam três travestis
Puseram-nas vis-a-vis
Trataram-nas como reses

Mandaram todos embora
E humilharam os detentos
Mas encontraram lá fora
Os seres mais violentos
O povo enfurecido
Num coro mais que atrevido
Exigiram dos sargentos:




“Libertem estes rapazes
Ninguém aqui é bandido
Saiam, pois somos capazes
Dum protesto decidido
Homossexual é gente
Desumana é a mente
De quem espanca ‘entendido’

Quase uma hora de atrito
No ano sessenta e nove
A polícia com apito
Tudo por causa dum ‘love’
O Estado achando demais
Amor de homossexuais -
Só de lembrar me comove

Surgiu ali o embrião
Duma data mundial
Virou comemoração
Qual a noite de natal
Agora no interior
Tem até vereador
Pelo gay municipal

Esse é o dia de orgulho
De quem sofre a opressão
Dia de muito barulho
E de grande agitação
De bandeira colorida
Para celebrar a vida
O amor e a paixão

Dia de dizer ao mundo:
Respeite a diversidade!
Abaixo o ódio imundo
Basta de mediocridade
A Humanidade é
O gay, o padre, a mulher
Homem de terceira idade

A data exige de todos
Mais amor, mais tolerância
Propõe o fim dos engodos
Exige mais segurança
Direito e democracia
Sossego, cidadania
Respeito e esperança

Por isto no Cariri
Onde tudo nos fascina
Onde a flor de pequi
Desabrocha e nos ensina
O gay tem que se afirmar
Organizado, lutar
Contra a morte como sina

É dever de toda gente
Combater o preconceito
Quem se julgar consciente
Quem quer exigir direito
Jonatan Kiss foi assim
Amou e viveu, enfim
Conquistou nosso respeito!

quarta-feira, 4 de junho de 2008

DO DIREITO DE SER GAY (ou condenando a homofobia)

Se preferir ouvir, recitado na voz de Deth Haak, clique AQUI!
Diante do Tribunal
Zeca expôs a questão
“sou um homossexual
E peço vossa atenção
O que deve ser julgado
E d’uma vez extirpado
É o ódio; o amor, não!

Não está em discussão
A minha intimidade
Aqui a acusação
Pesa contra a insanidade
De quem ousa decretar
Que é proibido amar
Invocando a divindade

Meu direito de ser gay
Não me pode ser negado
Pois não ajo contra a lei
Quando ouso ser amado
Por alguém do mesmo sexo
Por mais que seja complexo
Esquisito ou estranhado

Sou eu, pois, um cidadão
Que trabalha e contribui
Com esta grande nação
E que dela não se exclui
Mereço todo o respeito
Sou sujeito de direito
Que avança e evolui

O que temos que julgar
É a tal da homofobia
Que está a provocar
Mortes pela cercania
Privando gente decente
De viver alegremente
Entre nós, em harmonia

Não podemos conceber
Que a injustiça impere
Temos que nos envolver
Pois toda morte nos fere
Todo gay é ser humano
Todo ser é nosso “hermano”
Se pensa assim, não tolere

Não seja condescendente
Cúmplice ou co-autor
Muito menos conivente
Com tais atos de horror
Se você tem consciência
Denuncie a violência
Seja lá contra quem for

Não me chame de demente
Anormal ou acintoso
Nem tampouco de indecente
Pecador ou monstruoso
Ouse atacar injustiças
Reveja suas premissas
Não sou eu o criminoso!

O que há de errado em mim?
E que você não suporta?
Tente escrever outro fim
Para a velha história torta
Um defensor de direito
Não dormirá satisfeito
Omisso, fechando a porta!

A diferença existe
Não adiante negar
Pra que este dedo em riste
Sempre a me apontar?!
Vá julgando a minha vida
E escondendo a ferida
Que tu não ousas curar!

Em toda a Humanidade
Houve gente como eu
Vítima da iniqüidade
Quanto inocente morreu!
Em nome de um modelo
Que sempre imprimiu um selo
Separando tu e eu

Foi assim com outros seres
Igualmente “diferentes”
Ante os “podres poderes”
Continuaram silentes?
Mulheres, negros, judeus
Anciãos, crentes, ateus
São todos eles doentes?

Suplico, reflitam mais
Sobre vossas posições
Examinem os anais
Das vossas “convicções”
Vejam que todos perdemos
Que Justiça defendemos
Admitindo exceções?

Repito: eu sou um gay
Veado, homossexual!
Sou eu um fora-da-lei?
Delinqüente, marginal?
Tenho direito a viver?
Ou minha sina é morrer
Sob a lâmina de um punhal?

Digam, senhores jurados!
E povo da minha terra!
Quem deve ser condenado?

É este que aqui vos berra?
Ou a tal homofobia?
Que mata à luz do dia
Vai à missa, ora e enterra?

Eu quero finalizar
Pedindo para os doutores
Comecem a se indagar
Olhem-se nos corredores
Quem não conhece um gay?
São todos foras da lei?
Ou há algum entre os senhores?

Quem nunca teve um colega
Quem sabe até um parente
Aquele a quem você nega
O direito de ser gente
De existir, ser feliz
Ser dono do seu nariz
E levar a vida contente?

Vamos, pensem um segundo!
Antes do seu veredito
Quem aqui criou o mundo?
E tudo o que “está escrito”?
Não é este o argumento?
Que lhes serve de cimento
Sobre o que tenho dito?

Deixo agora com vocês
O direito de julgar
Não é mais a minha vez
Fale quem quiser falar
Condenada a homofobia
Quem sabe por mais um dia
Muitos possam respirar

Sendo ela absolvida
Certamente ouvirão
Dizer que mais uma vida
Foi ceifada no sertão
E também no litoral
Onde gay não é igual
A qualquer um cidadão

Data vênia, meus senhores
Mas isto é covardia
Onde eu for, onde tu fores
Sempre dor e agonia
Ponham um ponto final
Sou um homossexual
Tenho direito ao meu dia!

terça-feira, 3 de junho de 2008

LESBECAUSE

Se preferir, ouça na voz de Deth Haak, clicando AQUI!
Let me see se apre(e)ndi
A língua da mulher gay
Deixe-me ver se (ab)sorvi
O tal do verbo to say:
Seio you, seio me, seio we
Lesbecause let me see
Em junho tem
happy day

Por causa das lesbianas
Agora sou poliglota
Lésbicas ou pubianas
Já não as acho idiotas
Os lábios roçam as bocas
As bocas parecem loucas
Sedentas, mudam de rotas

Por causa das lesbianas
Surge a visibilidade
Algumas moças insanas
Se exibem com vaidade
Fazem manifestação
Mostram peito e coração
Se alastram pela cidade

Por causa das lesbianas
As feministas ampliam
A pauta das veteranas
Sussurram, berram e miam
Dizem “mulher com mulher”
E já não dá jacaré
Como muitos presumiam

Por causa das lesbianas
As línguas se entrelaçam
As bocas se chamam xanas
As xanas se chamam rachas
As rachas se chamam
girls
Garotas chupam freegels
Free girls chupam
muchachas

Por causa das lesbianas
Na ponta da lingua vem
Umas palavras sacanas
E um jeito de querer bem
Um dedo de prosa boa
Uma mão boba, à toa
Que move como ninguém

Por causa das lesbianas
É feita a tal discussão
Se Marias vão com Anãs
Por que chamar sapatão?
Preconceito dê no pé!!
O chato é ter chulé
Amor não faz calo, não

Por causa das lesbianas
A luta por igualdade
Impõe teses mais humanas
Requer a diversidade
Só a sociedade viva
Não hetero-normativa
Permite a felicidade

Por causa das lesbianas
Fala-se de peito aberto
Bonecas de porcelana
Não se pode ver de perto
Quanta historia mal contada
Quanta mulher mal amada
Por causa “do jeito certo”

Por causa das lesbianas
La vulva! Esquerda! Volver!
Enganam-nos qual iguanas
Estranha e dócil: por quê?
“Tímida e espalhafatosa”
Exposta e misteriosa
Na seca aprende a chover

Por causa das lesbianas
Minh’arte usa outro tom
Qual as culturas ciganas
Que exibem múltiplo som
Profanamente sagradas
Linguagens são agregadas
Colando lábio e batom

Por causa das lesbianas
Nem só a cultura é oral
Abaixo as falas tiranas
“Pedra é pedra, pau é pau”
Não “é o fim do caminho”
Lesco-lesco e roçadinho
Sugerem outro final

Por causa das lesbianas
As “águas de março” vêm
Lavadas pelas baianas
Do jeito que só faz bem
No oito do mês de festa
Abra-se mais que uma fresta
Pra Ela falar também

Por causa das lesbianas
Escrevo mais um cordel
Dedicado às Fulanas
Com registro em papel
Exorto-as a amar
Bem como a comemorar
A vida embaixo do Céu

Em face da Lesbecause
Falo em direitos iguais
Não só pra mexer no mouse
(Mas pra fazer muito mais)
É que se fez nossa mão
Nossa boca e coração
Nossa língua e nossos ais

Em nome da causa delas
Façamos uma Parada
Pra expor nas janelas
Em letras arroxeadas:
Nenhum direito a mais!
A menos também jamais!
Esta é a grande sacada!