Cordelirando...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Maria, Helena

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Intercalando um bendito
Com leituras do meu ser
Tirei do dito o não-dito
Fiz a reza estremecer
Acordei fiz um cordel
Tatuando num papel
Um romance pererê

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Fui montando minha peça
Pra Orlando encabeçar
Vai trazer prazer à beça
Pro povo do Ceará
Não tem príncipe encantado
Nem cawboy gay potentado
Mas tem beata a gozar

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Se este não é seu lema
Não se perca no dilema
Vá pra outra frequesia)

Maria amando Helena?
Helena amando Maria?
Numa casinha pequena?
No pingo do meio-dia?
Maria amando Helena?
Helena amando Maria?
Quem as imaginaria?

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Ajeite logo a antena
Não posso perder a cena
Grita Dona Maresia)

Maria, amada de Helena
Helena, amor de Maria
Veja que belo poema
Cheio de luz e magia
Inspira-me este tema
Quero levar pro cinema
De arte da cercania

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Tragam-me uma algema
Eis o meu estratagema
Pra cuspir na burguesia)

Maria e sua Helena
Nasceram neste lugar
Na Baixa da Siriema
Perto do Rio Quicuncá
Os mais velhos dizem delas:
“São duas moças donzelas,
Fale quem quiser falar”

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Tire do ovo a gema
Bote na clara um trema
Arribe, vá pra Bahia)

Maria é meio calada
Vive da agricultura
Helena tange a boiada
E também faz escultura
As duas são benzedeiras
Nordestinas, brasileiras
Força, fé e formosura

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
(Ufa, cadê meu esquema?
Tô perdendo a energia)

Maria que é (de) Helena
Helena que é (de) Maria
Ninguém aqui as condena
-assim falou minha tia -
“Uma é fulô de açucena
A outra, bela morena”
As duas têm empatia

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Pegue logo o castiçal
Uma vela não faz mal
Para afastar heresia)

Helena ajuda Maria
No seu plantio de feijão
A ela faz companhia
Nalguma renovação
Só andam emparelhadas
Nas noites enluaradas
Deste querido torrão

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Eu nunca mais vi Moema
Trepada numa jurema
Querendo dá agonia)

Maria que é devota
Do Padim Ciço Romão
Um dia já foi cambota
Conforme a explicação
Sua mãe fez um pedido
E sendo ele atendido
A graça se fez, então

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Com suas pernas perfeitas
Maria vive a orar
Anda sempre satisfeita
Todo ano a jejuar
Nos dias vinte do mês
Tira o vestido xadrez
Põe preto no seu lugar

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Helena que aprecia
As festas de apartação
Sempre leva a “novia”
Lá para a Exposição
Lembra com voz embargada
De quando montou Pintada
Numa noite de São João

Helena ama Maria
Maria ama Helena
Não é Mundo de Sofia
Nem é novela chilena
É romance sub-urbano
Latino-americano
Folk-love em quarentena

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Maria vive pra Helena
Helena só pra Maria
Maria diz “ô Helena”
Helena diz “oi Maria”
“Vem aqui de junto d’eu
Presente que Deus me deu
Minha bela estrela guia”

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Helena diz a Maria:
“Tu é que nem vaga-lume
Por onde anda alumia
Do piso inté o cume
Tu só me dá alegria
Por ti mil vez eu faria
A Antõe Cruize ciúme”

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

As duas levam a vida
Agradecidas demais
Quando não estão na lida
Estão celebrando a paz
Já diz o velho ditado
“o que é bom ta guardado”
Só as entende quem faz.

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Sei que Maria é Helena
E que Helena é Maria
E se Maria ama Helena
Também Helena a Maria
Mais uma vez a novena
E tudo se concatena
Pão nosso de cada dia!

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

MULHER TAMBÉM FAZ CORDEL


O folheto de cordel
Que o povo tanto aprecia
Do singelo menestrel
À mais nobre academia
Do macho foi monopólio
Do europeu foi espólio
Do nordestino alforria

Desde que chegou da França
Espanha e Portugal
(Recebido como herança)
De caravela ou nau
O homem o escrevia
Fazia a venda e lia
Em feira, porto e quintal

Só agora a gente vê
Mulher costurando rima
É necessário dizer
Que de limão se faz lima
Hoje o que é limonada
Foi águas podre, parada
Salobra com lama em cima

A mulher não se atrevia
Nesse campo transitar
Por isso não produzia
Vivia para seu lar
Era o homem maioral
Vivia ele, afinal
Para o mundo desbravar

Tempo de patriarcado
Também de ortodoxia
À mulher não era dado
Sair pela cercania
Exibindo algum talento
Pois iria a julgamento
Quem não a condenaria?

Era um tempo obscuro
Para o sexo feminino
O castigo era seguro
Para qualquer desatino
Como não sabia ler
Como podia escrever
E mudar o seu destino?

Sem ter a cidadania
Vivendo vida privada
Pouco ou nada entendia
Não era emancipada
Só na cultura oral
Na forma original
Se via ela entrosada

Nas cantigas de ninar
Na contação de história
Tava a negra a rezar
A velha sua memória
Porém disso não passava
Nada ela registrava
Para sua fama e glória

Muitas vezes era tida
Como musa inspiradora
Aquela de cuja vida
Tinha que ser sofredora
Era mãe zelosa e pura
Qual sublime criatura
Porém não era escritora

Sempre a versão do homem
Impressa nalgum papel
Espero que não me tomem
Por feminista cruel
Mas o fato é que a mulher
Disto temos que dar fé
Tinha na vista um véu

O homem que a desejava
Queria-a qual princesa
Sempre que a venerava
Era por sua beleza
Só isto tinha virtude
Para macho bravo e rude
Mulher com delicadeza

De sua cria cuidando
Cosendo calça e camisa
Para o homem cozinhando
Como vir ser poetisa?
Isto era coisa para macho
Até hoje ainda acho
Gente que assim profetiza.

Até porque o folheto
Era vendido na feira
E era um grande defeito
Mulher sem eira nem beira
Era preciso viagens
Contatos e hospedagens
Pra fazer venda ligeira

E durante muitos anos
Assim a coisa se deu
Em muitos cordéis tiranos
A mulher emudeceu
O homem falava dela
Mas não falava com ela
Nem ela lhe respondeu

Ocorre que em trinta e oito
No ano mil e novecentos
Um fato dito afoito
Veio soprar outros ventos
Uma mulher escreveu
No cordel se intrometeu
Mostrando novos talentos

Talvez seja o primeiro
Cordel de uma mulher
Neste solo brasileiro
Nenhum registro sequer
Confere a este fato
Que seja o dito exato
Mas não é coisa qualquer

Filha de um editor
Família de trovadores
Se esta mulher ousou
A ela nossos louvores
Mas temos a lamentar
Porque não pode assinar
O verso como os autores

Não era uma desvalida
Que escrevia um cordel
Mas uma moça entendida
Parente de menestrel
Mesmo assim se escondia
Pois a vida requeria
Não assumir tal papel

A Batista Pimentel
Com pré-nome de Maria
Não assinou o cordel
Como a história merecia
Mas que o destino tirano
Um Altino Alagoano
Era quem subscrevia

Pseudônimo usou
Para a obra ser aceita
O marido orientou:
“Assim tudo se ajeita”
Tava pronto pra vender
Quem poderia dizer
Ser o autor a sujeita?

Neste tempo já havia
Escola, educação
Alguma mulher já lia
Tinha certa instrução
Tinha delas que votavam
Outras até trabalhavam
Nalguma repartição

Outro tempo aparecendo
Reclamando outra postura
A população crescendo
Emprego e certa fartura
Indústria se instalando
O povo se empregando
Buscando alguma leitura

Mas foi muito gradual
No campo do popular
Tinha aqui um bom sinal
E um retrocesso acolá
No nordeste nada é reto
Até hoje analfabeto
Não conhece o beabá

Somente em setenta e dois
Vicência Macedo Maia
Viria escrever depois:
Nascia o verso de saia!
No estado da Bahia
Deu-se a tal rebeldia
Que hoje não leva vaia

Depois disso, alagoana
Potiguar e cearense
Também tem a sergipana
Paraíba e maranhense
Tem delas no Piauí
Também estão a surgir
Paulista e macapaense

Em todo o nosso Brasil
Mulheres versejam bem
Muito verso se pariu
Não se excluiu ninguém
Tem rima a dar com pau
-acho que me expressei mal-
Pois com a vagina também

Mas a grande maioria
Se concentra no nordeste
Onde um dia a poesia
Era do cabra da peste
Hoje as mulheres estão
Rimando e não é em vão
Do litoral ao agreste

Talvez seja sintomático
Que o cordel no sertão
Ainda seja simpático
E noutros lugares não
O tal cordel já foi tido
Como jornal e foi lido
Em muita ocasião

Serviu para ensinar
Muita gente aprender a ler
Serve para recitar
E muita gente entreter
Cordel é sempre estudado
Em tese de doutorado
Mas tem gente que não vê

Alguns pensam hoje em dia
Que cordel é só tolice
Que não tem categoria
Que é mera invencionice
Feito por homem, não presta
Por mulher então, detesta
Veja quanta idiotice

Mesmo assim elas versejam
E muito bem por sinal
Algumas até desejam
Ir para uma bienal
Mostrar a nossa cultura
A nossa literatura
Etecetera e coisa e tal

Versos de todos os matizes
De toda forma e cor
Algumas são infelizes
Reproduzindo o horror
Do machismo autoritário
Consumismo perdulário
Que tanto as dominou

Mas são as contradições
Presentes neste sistema
Onde mulheres padrões
Vivem também nos esquemas
Eu só quero é celebrar
Da mulher o versejar
Longe dos velhos dilemas

Nosso tempo nos permite
Botar o verso na rua
Quem vai colocar limite
Quem ousa sentar a pua?
Cordel também é cultura
Quem nunca fez a leitura
Iletrado continua

O cordel é centenário
Nesse Brasil de mistura
É recente no cenário
Da fêmea a literatura
Só estamos começando
Devagar, engatinhando
Quem agora nos segura?

Trinta cordéis eu já tenho
Publicados pelo mundo
Mais uma vez me empenho
Me emocionando no fundo
Metade é sobre mulher
Para mostrar como é
Amor e verso profundo

Aqui encerro meu verso
Cumprindo o meu papel
Se ele foi controverso
Deselegante ou pinel
Só quis dizer para o povo
O que pra alguém é novo:
Mulher também faz cordel!

MEU PAI

Meu pai por ser um pedreiro,
Dele muito me orgulho
Sempre foi muito guerreiro
Homem de muito barulho
Seja mexendo o cimento
Seja curando o tormento
Ele desata o embrulho

Sempre foi desenrolado
Atento, astuto, sabido
É homem pouco letrado
Porém muito esclarecido
Por isso nesse cordel
Reconheço seu papel
De pai teimoso e querido

Nascido em 44
No nordeste brasileiro
Um cearense de fato
Um matuto, um roceiro
Arribou de Várzea Alegre
Jovem, à sorte entregue
Foi se arranchar no Granjeiro

Chegou pela Cana-Brava
Trabalhou, foi serviçal
Arroz, feijão apanhava
Cuidou também de animal
Era um rapaz arrojado
Nunca foi acomodado
Era este um bom sinal

Viveu nas casas alheias
Longe do seu “habitat”
Ia acanhado pra ceia
Era comum se deitar
Em qualquer canto do chão
Porque não tinha um tostão
Pra uma rede comprar

Porém como desejasse
Melhorar a sua vida
E muito se interessasse
Em sair daquela lida
Resolveu então partir
Pra muito longe dali
Onde lhe dessem guarida

Sonhava em ir para o sul
E arranjar um emprego
Mirava o céu azul
Como quem quer um brinquedo
Mas um dia decidiu
Da Cana-Brava partiu
Foi enfrentar o seu medo

Nesse tempo já gostava
De quem hoje é minha mãe
Que ficou na Cana-Brava
Numa angústia sem “tamãe”
Foi lá pros anos 60
Que segundo ele comenta
“Havia progresso e gãe”

Fugindo do desemprego
No tal êxodo rural
Meu pai foi pedir arrêgo
Na maior das capital
E se vendo sem dinheiro
De lavrador a pedreiro
Subiu na vida, afinal

O ofício era pesado
Mas tinha de trabalhar
Ficava admirado
Com tantos prédios no ar:
“São Paulo é feito das mão
Dos nordestinos irmão
Que não param de chegar"

Depois dum tempo in Sampa
- tijolo, massa, cimento-
Viu um bem-te-vi que canta:
“na cacunda d'um jumento”
Era um quadro na parede
"No lugar de botar rede
Eles botam é monumento"

Quando juntou uns tostão
Veio para o Ceará
Somente pedir a mão
Desta que ficou por cá
Em poucos dias casou
E a esposa levou
Pra no sul dele cuidar

Cada ano que passava
Um filho via nascer
Em São Paulo um brotava
No Ceará, outro ser
Ao todo tiveram seis
Sou a segunda da vez
Cá estou para escrever

Por três décadas seguidas
Meu pai ia e voltava
Pontilhava nossas vidas
Ou cá, ou lá ele estava
Edificando a cidade
E perdendo a mocidade
Enquanto a gente estudava

Tijolo sobre tijolo
Ferro, massa, telha e cal
Aniversário sem bolo
São João, finados, Natal
Onde era mato, um produto
Igreja, escola, viaduto
Shopping, motel e canal

Seguia a vida querendo
Não fracassar, nem sofrer
Algumas noites bebendo
Outras no frio, a tremer
Muitas agruras passou
Até que o álcool deixou
E nunca mais quis beber

Fez muita casa aonde
A vida parece bela
E o arranha-céu esconde
Os barracos da favela
Deixou em cada azulejo
Tatuado um desejo
Que fosse aquilo novela

Viu o progresso de perto
E a miséria do lado
Falava de peito aberto
Com seu sotaque arrastado
“Eta sul fí d’uma égua
Um dia dou uma trégua
Vendo meus filho formado”

Enfim comprou uma terra
Nem míni nem latifúndio
Teve que entrar noutra guerra
Fazendo um corte profundo
Depois duma cirurgia,
Mudou o seu dia-a-dia
E retornou pro seu mundo

Voltou a viver no mato
Conforme sempre gostou
Mas não perdeu o contato
Com o mundo exterior
Agora rega o estrume
Contempla o vaga-lume
Colhe laranja e fulô

Deixou o prumo e a linha
Pegou enxada e pá
Tem lá a sua casinha
E terra pra cultivar
Merece a minha homenagem
Porém não tenho coragem
Desse verso recitar

Hoje é homem da lida
Do trabalho no roçado
Retornou à velha vida
Mesmo estando cansado
Pois para se aposentar
Teve ele que provar
Que nunca ficou parado

Mesmo assim ele é feliz
Porque no mato nasceu
Voltou a sua raiz
(o pedreiro não morreu)
Ressurge o agricultor
Com quem mamãe se casou
E deu origem a eu

Terminando esse poema
É preciso relembrar
Que o pedreiro foi tema
Pra um poeta exemplar
O grande Chico Buarque
Traduziu na sua arte
O seu valor singular

Com os olhos embebidos
Entre lágrima e cimento
Mas quase nunca esquecidos
Dessa vida de tormento
Subindo o patamar
Ou na roça a plantar
Reconheço seu talento

Operário em construção
Autoridade paterna
Homem de convicção
De atitude fraterna
Meu pai, um grande herói
A sua história constrói
A idéia que nos governa!

O GRITO DOS "MAU" ENTENDIDOS

Era uma assembléia
Só de homossexuais
Era geral a geléia
Havia gente demais
O discurso era polido
Todo mundo era entendido
Nas ciências sociais

Chegou a televisão
E o jornal foi chamado
Não podia ser em vão
(Que evento do babado!)
O roxo e o rosa-choque
Prometiam dar ibope
(gay adora ser filmado)

Algo cultural rolava
Antes da programação
Chico César animava
Com uma bela canção
Logo se comprometeu:
“Esse homem nu sou eu”
-olhos de contemplação!-

Disse ainda sem pudor:
“eu já fui mulher, eu sei”
Vitor Fasano gritou:
“Eu to gostando, meu rei”
Pepeu Gomes aplaudindo:
“Já fui homem feminino,
Fiz escola, inaugurei...”

Cássia Eller convidada
Cantou exibindo a teta
Uma garota excitada
Pedia outra faceta
De repente o som parou
Ângela Ro Rô chegou:
“porrada ou um som porreta?”

Quando recitou Bethânia
A turma ficou ligada:
“quando você me entendeu
Eu não entendia nada”
Calcanhoto, seu recado:
“transito entre dois lados”
É verdadeira cantada.

Um amor tão delicado
Nenhum homem (lhe) daria
“Caetano tá enganado"
Grita João, brada Maria
Neste evento inusitado
Não há como ser lembrado
Se não for por alegria

Os crachás distribuídos
As teses por todo lado
Líderes já escolhidos
Para um debate animado
O “dignidade já!”
Era a senha pra entrar
Bastava ser delegado

A imprensa esperava
Um “furo” para mostrar
Mas ao passo que falava
Gabeira entrava no ar
Politizou o debate
E lançou um xeque-mate:
“gay também sabe votar”

Disse ele: “hoje eu sei
E o Brasil precisa ver
Que o movimento gay
Existe e é pra valer
Pra bater no preconceito
Pra lutar pelo direito
De amar e de viver!

O entendido precisa
Também se organizar
Tem de vestir a camisa
(de Vênus, é bom lembrar)
Neste mundo desigual
Quem for homossexual
Também precisa lutar!

É grande o preconceito
Contra o homossexual
Exijamos mais respeito
Da lei e do tribunal
Imposto também pagamos
Basta! Já não toleramos
A pecha de marginal

A violência também
Precisa ser combatida
Não é dado a ninguém
Manipular nossa vida
Ele ou ela, não importa
Se fulaninha “é morta”
Que seja uma morta-viva!

AIDS e DST’s
Assolam nosso habitat
Vamos fundar comitês
E contra elas lutar
Vamos junto com o povo
Construir um mundo novo
Onde o lema seja amar”

Ouvindo tudo calado
Um homem ficou de pé
Na roupa tinha um bordado
Escrito: “Jesus me quer”
Gabeira disse: você
Tem algo a nos dizer?
E ele: meu nome é Dé!

O povo todo aplaudiu
E ele continuou
Confessou usar “renew”
E disse: “sou o que sou,
“E venho de uma terra
Onde um padre, numa serra
Um dia me abençoou”

Ele invocou São Francisco:
“é dando que se recebe”
E elogiou Corisco:
“Mas Dadá é o que se pede”
E disse, sem preconceito:
“O rio só corre no leito,
Enquanto a margem não cede”

“Falsa é a sociedade
Que nos cospe e abomina
Eu lhes digo, em verdade
Ser ‘alegre’ é minha sina
Se um dia nasci homem,
Mesmo que tudo me tomem
Eu sempre quis ser menina”

“Por que não amaldiçoam
Os governos de opressão?
Por que só de nós caçoam
Diante da multidão?
O povo tem que entender
Porque o gay pode ser
Seu primo, pai ou irmão”

Ademais eu vou falar
-escute amigo meu-
“se o povo de Quixa(dá)
E se também Ama(deu)
Se o povo do Su(dão)
Ta(deu) para seu irmão
Por que não posso dar eu?”

E o debate seguiu
Num nível sempre elevado
Uma garota pediu
Que o tempo fosse marcado
Após as resoluções
Serviram as refeições
E um filme foi mostrado

Foi Aimeé e Jaguar
O filme que se exibiu
Um romance pra lembrar
Até o mês de abril
Quando o povo então verá
Os “mauditos” do Juá
Gritarem para o Brasil

O grito de que se fala
É o do “mau” entendido
Aquele que o mundo cala
Tal qual o mal resolvido
Pois o grito que escutei
Não foi o “ai, eu gozei!”
Foi o grito do oprimido

E para finalizar
Confesso que acordei
Fiquei então a pensar
Naquilo com que sonhei
É bom que não fique torto
O grito do povo morto
Eu só psicografei.

domingo, 27 de julho de 2008

CIDADANIA Nome de Mulher


Quando minha bisavó
Vivia pelo sertão
Era um tempo de aperreio
Era grande a precisão
Mulher não tinha direito
Pro homem tudo era feito
Só ele era cidadão

Era comum se ouvir
Que mulher vive é calada
Faz a vontade do homem
Para não ficar “falada”
A mulher era um objeto
Casava pra ter um teto
E cuidar da filharada

A mulher também não tinha
Nenhum prazer sexual
Nem mesmo sonho ou desejo
Vivia como animal
Servia sempre seu dono
Ou caía no abandono
Era o destino fatal

Se quisesse trabalhar
Seria dentro de casa
Estudar era um perigo
Pois podia criar “asa”
A família exigia
Q’ela se casasse um dia
Pra ver se desencalhava

Era grande o sofrimento
Da mulher daqueles dias
Não se falava em direito
Tudo isso era utopia
Bastante coisa mudou
Mas ela continuou
Vítima da covardia

Lutar, eu sei que lutou
Se pôs contra a monarquia
Deu à luz o cidadão
Mesmo sem cidadania
Se organizou, foi à rua
Rasgou o véu, ficou nua
Pugnou por alforria

Enfrentou os militares
Disse: “queremos votar”
Ajudou fundar partidos
Deixou de silenciar
Lançou sua voz ao vento
No Poder tomou assento
Conseguiu se emancipar

Por conta de sua luta
Um preço sempre pagou
Pois mentes reacionárias
O mundo sempre gerou
Mas foi no capitalismo
Onde o crescente machismo
Outras proporções tomou

Variadas são as faces
Dos crimes contra a mulher
A violência velada
Ninguém vê, ninguém dá fé
Mas quando é ostensiva
O mundo todo se esquiva
“e ninguém mete a colher”

Há casos onde a vítima
É tida como culpada
O mundo todo pergunta
Pelo que fez a finada
Como querendo saber
Se ela fez por merecer
Ter a vida abreviada

A opressão feminina
É algo muito cruel
E apesar dos direitos
Insculpidos no papel
A violência avança
Matando até criança
De forma torpe e cruel

Aqui no meu Cariri
Dos limites já passou
Pois diversas companheiras
O machismo já matou
Foi crime de toda forma
E que ninguém se conforma
Passe quanto tempo for

Mulher de todas as classes
De idades variadas
Algumas desconhecidas
Outras identificadas
Morreram barbaramente
Mas seus algozes contentes
Estão soltos, a dar risadas

Mas vamos somando braços,
Mãos, cabeças, coração
Sigamos os nossos passos
Nenhuma luta é em vão
A conquista do presente
Foi no passado a semente
Que se plantou nesse chão

Para se fazer justiça
Não há só o tribunal
A gente também conquista
A luta em palco real
Pois se o governo demora
E o parlamento ignora
É porque votamos mal

Vamos mostrar que pensamos
E procriamos idéias
E que não só menstruamos
Gritemos em assembléia
Cidadania se quer
E tem nome de mulher
Eis a nossa epopéia

Uma questão de justiça
Estamos a colocar
Ninguém pode ser omissa
O tempo é de lutar
“Cidadania-Mulher”
É tudo que a gente quer
Não podemos mais calar

Não é justo que hoje em dia
Nada possamos fazer
Pois se vovó não queria
Desta maneira viver
Como poderemos nós
Quase cem anos após
À opressão nos render?

Eis o nosso desafio
É preciso matutar
Vovó não tinha direito
Mas hoje direito há:
Para que cidadania?
Só pra rimar com Maria?
Ou pra se exercitar?

Repito: cidadania
Já tem nome de mulher
Se não vem delegacia
Então mostremos quem é
A autoridade vil
Que com má-fé e ardil
Faz conosco o que bem quer

E pra finalizar
Um convite a OAB
(Para a luta não parar
Para não arrefecer)
Vamos nos somar agora
“pois quem sabe faz a hora
Não espera acontecer”

"Habeas bocas, Companheiras!"


Eis que elas se encontram
Em grande reunião
Discutem temas candentes
Sobre sua profissão
Falam em novo milênio:
Trabalho e emancipação

São muitas advogadas
Laboram no Cariri
De Juazeiro e do Crato
Missão Velha e Mauriti
Assaré, Jardim e Barro
Aurora, Brejo e Jati

Penaforte e Barbalha
Mangabeira e Ipaumirim
Abaiara e Milagres
Santana do Cariri
Salitre e Araripe
Antonina e Jardim

Do verde vale à serra
Todas comparecerão
Ao encontro que, marcado,
Mudará a região
Mostrando que advogado
Tem de gênero, flexão

Valdelúcia e Alex-Sandra
Suêrda e Amanda virão
Vamos chamar Valdenice
Lucrecia e Vilmar então
Cida, Léa e Eunice
Zulene e Tânia estarão

Odete, Edna e Carminha
E Eliane também
Iranir, Josefa e Lúcia
Já confirmaram que vêm
Fátima, Geralda e Veruccia
Não pode faltar ninguém

Assim como Sulamita
Valéria e Romana vão
Contactar Dagmar
E outras da região
Norma, Cícera e Gilda
Márcia também, por que não?

São corajosas mulheres
Que discutem este mês
Contrariando os reveses
Que a História lhes fez
Buscarão mudar o quadro
Brigando por voz e vez

Exigirão com firmeza
Seja a lei observada
Defenderão com destreza
A colega destratada
Falarão à luz acesa
Coisa que tava engasgada

Embora advogadas
Sofrem discriminação
Lutam por valer a lei
E não fazem concessão
São signos destas mulheres
Garra e determinação

São mães, esposas e filhas
Sabem da “situação”
O compromisso com a luta
É dever da profissão
Envolve muitas mulheres
Transcende a região

Lançou-se aqui a semente
A árvore plantada está
Não perca a ocasião
Venha conosco opinar
Somos muitas, companheiras
Estamos a lhe intimar

Há muito que discutir
No seio desta Justiça
A ORDEM é participar
Não se deve ser omissa
No futuro a gente quer:
Nem machismo nem malícia

O respeito entre colegas
A Ética já disciplina
Desde a vida acadêmica
A escola nos ensina
Se o Direito é masculino
A Justiça é feminina!

Oficial ou juiz
Promotor ou delegado
Policial, aprendiz
Todos devem ser lembrados:
Que advogada mulher
Não é “castelo encantado”

O estatuto esclarece
Que não há hierarquia
Nem juiz, nem promotor
Deve querer ser seu guia
Nosso regimento tem
Mui valor e serventia

O 1º encontro pede
Deliberações de frente
Quem nega que há machismo
É cego ou incoerente
Existem até juristas
Discriminando a gente

Data vênia, meu colega
Você precisa entender
Esta luta é minha e sua
Não basta só eu querer
Se o machismo ganhar
Todos nós vamos perder

Componham-se as querelas
Incontinenti desfaçam
Atitudes vãs e vis
Que ora nos ameaçam
Chegando o novo milênio
Por si só elas não passam

As decisões deste Fórum
Precisam ser divulgadas
Para que nossas idéias
Passem a ser respeitadas
Tendo a OAB à frente
Seremos tranqüilizadas

Remeta-se ao juiz
Dê-se vista ao promotor
Notifique o delegado
Publique-se, por favor
Registre-se o recado:
Retifique-se, Doutor!

Por fim quero lhe dizer
Que não lutamos em vão
Somos parte de um poder
Que governa a nação
Não podemos esquecer
Nada virá sem ação

Ademais é bom lembrar
Que somos advogados
De um Brasil promissor
Que ora se encontra “roubado”
Defender a Lei Maior
Não é coisa do passado

Importa anunciar
(Preste muita atenção)
A justiça não é cega
Fala e tem audição
Esta arte entre em vigor
Com sua publicação.

Mulher, Amor não rima com AIDS


Minha amiga, camarada
Ouça o que tenho a dizer
A AIDS é coisa ruim
Faz muita gente sofrer
Não tem cura, é fatal
Chega sem dar um sinal
Depois é só perecer

Tem atingido pessoas
De faixa etária qualquer
Não é uma “peste gay”
Persegue também mulher
Seja solteira ou casada
“Solta” ou de vida regrada
Não interessa quem é

E como não há vacina
Que previna esta danada
A mulher que já padece
De tantas outras ciladas
Precisa se informar
Para que possa transar
E não ser contaminada

O amor é coisa boa
E ninguém pode negar
Mas a vida é preciosa
Devemos dela zelar
Portanto, tome cuidado
Com marido ou namorado
Camisinha é pra usar

A AIDS já anda solta
Por essas bandas de cá
Cresce muito no Nordeste
Se alastra no Ceará
Alcança o cabra da peste
Seja de Leste a Oeste
Não podemos bobear

Se você se julga “santa”
Diz que o marido é fiel
“AIDS é coisa de quenga
Que trabalha num bordel”
Tá se enganando coitada
A AIDS chega calada
E leva você pro céu

Mulher, cuida do que é teu
Não te deixa ser lesada
Quem vê cara, não vê AIDS
Sem camisinha é “mancada”
Pensa que sabe demais
Hoje sai com um rapaz
Amanhã será finada

Sexo faz bem à saúde
Deixa a pele mais bonita
E seguro é mais gostoso
Todo mundo acredita
Com camisinha há gozo
Para o jovem e o idoso
Sem ela tu se complica

Não quero ser moralista
Clamando abstenção
Faço um alerta ao governo
Não basta dizer que NÃO
“Mate a AIDS, mostre o pau”
Dê camisinha afinal
Pra educar o povão

A mulher fala demais
E isto é bom nesta hora
Pois antes de começar
Ela dirá sem demora:
“Amor, põe a camisinha,
Do contrário, eu agorinha
Visto a roupa e vou embora!”

Companheira, gente boa
Este verso é pra ajudar
Na luta que travaremos
Para a vida melhorar
Sem AIDS, sem violência
Elevando a consciência
Temos direito de amar

Que seja lido na rua
Ou recitado na feira
Passado de mão em mão
Por alguma sacoleira
O verso não será vão
Se houver meditação
Antes de fazer besteira.