Cordelirando...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A Mulher de Sete Vidas

Eu vou narrar a história
Da mulher de sete vidas
Esta me vem à memória
Dentre tantas conhecidas
É uma saga interessante
Duma alma caminhante
Que gera e cura feridas

Não sei bem se foi um sonho
Ou algo que eu já vivi
Mas a contar me disponho
Em face do que senti
Fagulhas de misticismo
Centelhas de espiritismo
Cordel igual nunca vi

São diversas personagens
Que no fundo é uma só
A profusão de imagens
Vai da neta à bisavó
Num ciclo atemporal
Um discurso transversal
Que vai do sopro ao pó

Uma alma feminina
Que várias vidas viveu
Complexa porção divina
Assim como tu e eu
Sedenta por aprender
O sentido do viver
Um dia me apareceu

Surgiu diante de mim
Me deixando extasiada
Andando pelo jardim
Numa tarde ensolarada
Aquela mulher pequena
E de feição tão serena
Me pareceu “encantada”

Sorrindo disse: “Pessoa,
Uma luz te alumia
Tua palavra ecoa
Através da poesia
Nascestes para contar
Por meio do versejar
Que em tudo tem energia!”

E disse-me que no mundo
Tudo é espiritual
Tudo gira num segundo
Em ondas feito espiral
E logo foi-se afastando
Quando fui me aproximando
Deixou ali um sinal

Num pedaço de papel
Talvez psicografado
Pensei que eu tava pinel
Mas tava ali do meu lado
Naquela caligrafia
Minha carta de alforria
E um pouco do meu passado

E numa língua estranha
Mas em formato de rima
Eu vi aquela façanha
Algo que muito me anima
Aquela anunciação
Que tal qual uma oração
Nos dirige para cima

Depois que ela partiu
Um querubim despencou
Meu espanto ele sentiu
E sorridente me olhou
Eu perguntei: “Quem é ela?”
Ele disse: “Uma aquarela
Que você mesma pintou”.

E eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores?
Se eu me chamasse Raimundo
Seria rima e não dores!
Será que estou acordada?
Quem me armou esta cilada?
Ò Cristo dos meus amores!

Valei-me Carlos Drummond!
Vinde a mim Frida Khallo
Ouço um esquisito som
Pelejo, porém, não falo
Que coisa mais esquisita
Adentro numa mesquita
E meus olhos arregalo

E fico ali sem ação
Sem nada poder fazer
De repente uma canção
E me vejo adormecer
Ali eu compreendi:
Aquela mulher que vi
Tem algo a me dizer

Um sussurro sedutor
Zumbia no meu ouvido
Gemido ensurdecedor
Me fez perder o sentido
Então no tempo voltando
Fui pouco a pouco encontrando
Respostas ao requerido

Vi que aquela mulher
Não era desconhecida
Acredite quem quiser
Era eu mesma noutra vida
Então foi tudo encaixando
Eu a mim me revelando
Me tornando esclarecida

Passei então a saber
Por onde um dia andei
Pelo que pude entender
Muito mais eu andarei
Agora posso afirmar
Tudo que vivo a negar
Eu fui, eu sou, ou serei

Aquela mulher sombria
Para mim misteriosa
Que em princípio sorria
Depois se tornou chorosa
Tem uma história infinda
Triste, alegre, feia e linda
Terrível e maravilhosa

Vivendo aqui neste meio
Após sete encarnações
Provavelmente aqui veio
Cumprindo expiações
E já que pouco aprendeu
Muitos erros cometeu
Vítima de ilusões

Uma fêmea criatura
Que no espaço encarna
Exibindo a tessitura
Da lei conspícua do Karma
Néctar da Suprema Luz
Que o Universo conduz
Pretende chegar ao Dharma

Nascida num dia sete
O sete a acompanha
Em tudo que ela se mete
Há uma força estranha
Um anjo torto e cambota
Vive a lhe soprar lorota
Num eterno perde/ganha

Eis um ser em construção
Buscando se conhecer
Ora está na contramão
Ora ensina a viver
Faz das tripas coração
Faz do gemido oração
Faz derrotado vencer

Vive ela nesta vida
Conectada ao mundo
Em mil coisas envolvida
Não pára um só segundo
Invoca as forças do além
Mas não as entende bem
Pois é criança, no fundo

Vive a pedir proteção
E procurando entender
Qual é a sua missão
A razão do seu viver
Vive um dilema total
Oscila entre o bem e o mal
Em tempo de enlouquecer

Sente que tem um mentor
Um guia espiritual
O tal anjo protetor
A quem suplica um sinal
Para não mais se perder
Pra melhor se conhecer
Cuida do chacra frontal

Nesta busca incessante
Em torno do próprio ser
Teve um sonho alucinante
Que para melhor dizer
Foi uma revelação
Que trouxe a informação
Que passo agora a dizer:

Entre luzes cintilantes
E cores celestiais
Eloqüentes e vibrantes
Trombetas descomunais
Uma voz se aproximou
E junto dela falou
Dentre outras cositas mais:

“um anjo desencarnado
Não te quer gauche na vida
Ele a ti tem ajudado
Em chegada e despedida
Chamando tua atenção
Olha pro teu coração
E vede a luz escondida!

Tu tens estado perdida
Tens confundido a mente
Tens procurado saída
Porque se sente doente
Em toda religião
Suplica por proteção
Mas não se sente contente

Tens procurado entender
O que Deus manda pra ti
Buscado repreender
O mal que estás a sentir
Não vês que a hora chegou
Colhe-se o que se plantou
Disto não podes fugir

A tua sétima face
É tua força interior
Onde se dá o enlace
Criatura e Criador
É o Caminho do Meio
Donde toda Força veio
Onde se gera o amor

Sete vidas já vivestes
Mil histórias pra contar
Septuagésima morreste
No teu último caminhar
A cada vida passada
Uma missão consagrada
Voltastes pra resgatar

Já fostes dama da noite
Fostes cobiçada atriz
Vivestes sob o açoite
Da pecha de meretriz
Já fostes doce donzela
Levando vida singela
Sonhando em ser feliz

Fostes rica, fostes pobre
Fostes divina e profana
Fostes de linhagem nobre
E fostes também cigana
Numa vida, enaltecida
Noutras tantas, preterida
Oh! Que estrada tirana!

Saboreastes de tudo
Neste evoluir humano
Do punhal pontiagudo
Ao beijo do soberano
Da grande pedra que esmaga
À mão macia que afaga
De homem rico e insano

Na era mais primitiva
Foi coletora de erva
Na escravidão nativa
A negra que virou serva
Chegaste a ser segregada
Num feudo trancafiada
Tal qual ervilha em conserva

No mundo industrial
Como operária viveu
Contra os horrores do mau
Em batalhas se meteu
Dali extraiu lições
Que a vida tem dimensões
Que o homem nunca entendeu

Quando veio potentada
Do poder soube abusar
Humilhava a empregada
Fazendo a mesma chorar
Vivendo na burguesia
Nada mais te comovia
Tudo podias comprar!

Depois mendiga e demente
Foi maltratada e infeliz
Exposta ao sol inclemente
A vida ali, por um triz
Um tempo de aflição
De muita perturbação
Assim tua alma quis

Como filha, nem se fala
Ignorava teus pais
Um dia fez tua mala
Para nunca voltar mais
Drogada e prostituída
Suicidou-se em seguida
Atraída por teus iguais

Lembra-te da inimiga
Que noutra vida mataste?
Para curar a ferida
É a filha que tu geraste
O teu marido, coitado
Pelo álcool escravizado
Colhendo o que semeaste

A cada vida uma chance
Para se regenerar
Qual num macabro romance
Voltava ao mesmo lugar
Tudo te satisfazia
Sexo, poder e magia
Dinheiro pra se drogar

Mas eis que chegou a hora
De dar na vida um salto
Do crepúsculo à aurora
Tomada de sobressalto
A Luz que vem do Universo
Surge em forma de verso
Vinda de longe, do Alto

Nem só o material
O Homem deve buscar
A vida espiritual
É preciso cultivar
Após uma guerra externa
Vem uma batalha interna
Difícil de se ganhar

A mulher de sete vidas
Sete vezes se procura
Vislumbra algumas saídas
Mas busca a mais segura
Já não quer mais desengano
Na verdade o Ser Humano
Só em Deus encontra a cura

Se em ti o sete é marco
Ponto de chegada e fim
Vede a flecha e o arco
E o sangue jorrado, enfim
Aprende com o perdão
Constrói a tua oração
Dizendo à vida “sim”

Porque a tua essência
É da mais límpida luz
Trabalha a Consciência
De que O Pai te conduz
E o numeral cabalístico
Terá um sentido holístico
Qual o símbolo da cruz

De fato o sete está
Cheio de simbologia
Há muito a se analisar
A partir da energia
Tantos acontecimentos
Incontáveis elementos
Causando tanta euforia

Assim como a vida, o sete
Pode ser bom o ruim
Se fizeres uma enquete
Verás que tudo é assim
Há tempo para nascer
E tempo para morrer
Porém não existe fim

São tantas informações
Em torno deste algarismo
Muitas especulações
Certo fundamentalismo
Clara sincronicidade
Muita inventividade
Um pouco de esoterismo

Bastante superstição
Um pouco de fetichismo
Doses de adivinhação
Pitadas de ocultismo
Qual nas cartas dum baralho
Ou letra de Zé Ramalho
Mistério e malabarismo

Sete cores do arco-íris
Sete notas musicais
Seth é o irmão de Osíris
E os pecados capitais
Sete planetas sagrados
A sete palmo enterrados
Estão os pobres mortais

Sete é numero de sorte
Como também de azar
Aos sete dias da morte
É tempo de se lembrar
De quem partiu dessa vida
Pruma outra prometida
Para nunca mais voltar?

Sete pães multiplicados
Sete nações destruídas
Sete botas no telhado
Sete estrelas coloridas
Sete bezerros de ouro
Sete dias de agouro
Sete mortes, sete vidas

Sete dias da semana
Sete chagas do Senhor
Sete é o número que engana
Sete espinhos na fulô
Sete arcanjos devotados
Sete selos tatuados
Nos tratados do terror

Sete são as tais trombetas
Citadas no Apocalipse
Sete curvas dos cometas
Antes de vir o eclipse
Sete são leis de Noé
Sete números de fé
Sete sílabas em elipse

Sete anões e sete altares
Sete anos de labor
Sete bombas nucleares
Sete vezes protetor
Sete homens contra Tebas
Sete gotas contra amebas
Sete noites de horror

Setenta e sete vezes
Deve o cristão perdoar
Sete castiçais ingleses
Sete pragas a rogar
Sete conta o mentiroso
Sete histórias de Trancoso
Sete para descansar

Sete são as divindades
Que comandam a natureza
Sete são as majestades
Donas de toda beleza
Sete anos em construção
O templo de Salomão
Cheio de glória e riqueza

Enfim, são muitas passagens
Muita história e muita fama
São diversas as imagens
Que a Bíblia traz e proclama
Também a mitologia
A história influencia
E torna acesa a chama

Mas a sétima encarnação
Da mulher de sete vidas
Tem a significação
De sete plantas colhidas
É meio de evolução
Interna revolução
Reforma íntima sentida

É uma história pra ser lida
E depois ser explorada
Pois para ser entendida
Precisa ser comentada
Diz respeito a outros planos
Sobre os quais há mil enganos
E mil questões formuladas

Eis porque é bom falar
Sobre estas coisas assim
Pra que possamos pensar
Sobre o não e sobre o sim
Quem poderá nos dizer
Que não há novo viver
Quando tudo chega ao fim?

Mulher Consciência - Nem violência, nem opressão

Os números de violência
Têm crescido sem parar
Pra garantir resistência
É preciso não calar
Do Cariri pro Brasil
Quero me manifestar

Nos quatro cantos do mundo
A gente escuta contar
Mataram tantas mulheres
Outras mandaram matar
Estupram até meninas
Dentro do seu próprio lar

Este é um problema grave
Não podemos consentir
A matança de mulheres
Ficou comum por aqui
Ao invés de lamentar
Acho melhor reagir

É o mundo capitalista
Próximo do novo milênio
Em que pesem as conquistas
Do nosso último decênio
Concluem os humanistas
Na barbárie é que vivemos

Há muito tempo as mulheres
Sofrem grande opressão
Conta a História que isto
Nasce com a acumulação
Do produto do trabalho
Em algumas poucas mãos

Com a divisão das tarefas
A mulher ficou no lar
Cuidando de sua casa
E para filhos gerar
E sem ser remunerada
Não pode se emancipar

Antes disto a mulher
Viveu em plena união
Pois havia a igualdade
Na base da educação
Era da comunidade
Os meios de produção

A maternidade tinha
Importância sem igual
A mulher era rainha
Não era um ser marginal
Respeitada no trabalho
E na vida social.

Mas isso já faz um tempo
A história já mudou
Passamos pelo escravismo
O feudalismo passou
Agora o capitalismo
Vive tempos de terror

A história da mulher
É a história da opressão
Da mulher trabalhadora
E da esposa do patrão
A igualdade jurídica
De fato não existe não

Sociedade machista
Gera incompreensão
Aniquila a mulher
Perdendo em evolução
Pensa que o cabra homem
Sozinho faz o verão

Oprimida e explorada
A mulher ainda está
Pouco ganha, se empregada
Nada ganha se casar
Exerce tripla jornada
Mas tem forças pra lutar

Lutar contra a violência
Da qual é vítima fatal
Exigindo o cumprimento
Do tal preceito legal
Não aceitando o silêncio
Como resposta final

Lutar por salário igual
Ao homem em mesma função
Lutar por manifestar
A sua opinião
Nem que baixe na polícia
E acabe na prisão

Decidir, quando preciso
Se quer ter filhos ou não
Cuidar do próprio corpo
Sem nenhuma imposição
Com livre escolha do método
De anticoncepção

Ter informação idônea
Sobre doenças do sexo
Não ter medo nem vergonha
Se libertar dos complexos
Ser uma mulher feliz
Às vésperas do novo século

E para tanto é preciso
Não cochilar, não dormir
Pois se a mulher tem juízo
Não poderá consentir
Que o machismo perdure
Enquanto ela existir

É preciso somar forças
E lutar contra as mazelas
Meninas, velhas e moças
Vamos deixar as querelas
Vamos fazer um país
De Justiça, sem seqüelas

Somos muitas companheiras
Por este país imenso
Umas laboram na feira
Conforme nos disse o censo
Algumas são enfermeiras
Outras moram no convento

Professora, vendedora
Faxineira, advogada
Motorista, promotora
Cozinheira, operária
Camponesa, jogadora
Tantas são desempregadas

Mulheres, mães e amantes
São companheiras, enfim
Sonham com um mundo justo
Trabalham pra ser assim
Geram os filhos do mundo
Pra qu’este não tenha fim

Mulheres existem muitas
Metade, veja você
Do povo de nossa terra
Conforme ouvi dizer
Tem mulher demais na Pátria
Poucas, porém, no poder

É por isso que as leis
E as decisões importantes
Que na História se fez
Deste povo inquietante
Poucas delas tem a tez
Da mulher no seu semblante

Trinta e quatro deputadas
Tem o meu Brasil, somente
Apenas seis senadoras
Pra representar a gente
O Congresso Nacional
Revela-se incoerente

Mas isto pode mudar
Basta o Brasil querer
Uma Pátria não é livre
Sem a mulher também ser
É possível governar
Pluralizando o poder

O Código Civil caduca
Veja só que coisa vil
Avilta nossas mulheres
Por todo nosso Brasil
Uma lei de dezesseis
Vigora em pleno 2000

O homem ali é o “chefe”
Tem o “pátrio” poder
Anula seu casamento
Pode a noiva devolver
Se esta já não for virgem
Conforme tinha de ser

É do ano de 40
O nosso Código Penal
Uma lei tão importante
Há meio século igual
Se a vida é dinâmica
Mude o preceito legal

E sobre esta lei estável
Não preciso comentar
Se ao flagrar o “Ricardão”
Quiser a “honra lavar”
A “violenta emoção”
Pode a pena atenuar

E que dizer do estupro
Crime dos mais desgraçados?
Para o Código ele fere
Costumes convencionados
A mulher sofre agressão
O moral é que é lesado

Alguns espertos dirão
Mas, doutora, a Carta Magna
Já botou tudo por terra
A mulher tá amparada
Amparou a que morreu
Porque se encontra calada

A lei somente é pouco
É preciso decisão
Sem atuação política
Não há emancipação
A conquista do presente
Foi no passado a ação

Nós mulheres já cansamos
Das manchetes nos jornais
Companheiras que amamos
Alvo de golpes fatais
A impunidade fica
Elas não voltam jamais

A violência doméstica
É assunto de polícia
É preciso providências
Logo que tomar notícia
Trabalho profissional
E diligência propícia

Não se deve ser omissa
Se o marido é o agressor
Pois ninguém tem compromisso
De apanhar por amor
Se na novela é bonito
O Rei do Gado acabou

Não tolere, não transija
Não permita a violência
Cultive a auto-estima
Não aceite a prepotência
Ser feliz é ter prazer
Do contrário é doença

Se informe de seus direitos
Lute e cobre do Estado
Se o ego tá insatisfeito
Deixe a vergonha de lado
Vá exigir do prefeito
Reclame do deputado

Cobre do seu município
O Conselho da Mulher
Cadê a delegacia?
Você ainda tem fé?
E a creche do seu filho?
Lute enquanto puder

Só posso lhe garantir
Que direito você tem
Mas pra que serve o direito
Se na prática ele não vem?
Então adote uma tática
Brigue por isto também

Licença maternidade
É direito “amarrado”
Não é patrão quem decide
Se deixa ou não ser gozado
Se você for impedida
Procure um advogado

Se você é separada
E não deu causa à questão
E se tem filhos menores
Não perca a ocasião
Reclame do “dito cujo”
Seu direito de pensão

A C.L.T. prevê
E é preciso cobrar
Condições especiais
Para a mulher trabalhar
Da higiene ao descanso
Até da hora e lugar

Sobre aposentadoria
Não é preciso ter medo
E como não poderia
Não existe mais segredo
Dependendo do seu caso
É cinco anos mais cedo

A Constituição diz
Que somos todos iguais
Então arregace as mangas
E vá da saúde atrás
Escola para seu filho
Não pode faltar jamais

Se acaso é doméstica
E trabalha sem pudor
Saiba que existem direitos
Relativos ao labor
A Lei Máxima assegura
Não será nenhum favor

Se por acaso for presa
Ou pena estiver cumprindo
E tiver um bebezinho
Do seu leite consumindo
A lei vai lhe garantir
Este momento tão lindo

Se porventura for negra
E por isso discriminada
Não aceite tal afronta
Não fique desanimada
Isto constitui um crime
De fiança inaceitada

Não aceitar o machismo
Também implica lutar
Contra toda violação
Que se possa observar
Em nossa sociedade
E onde quer que se vá

A começar por aqui
Pelo Cariri amado
Onde o machismo covarde
Não se mostrou acanhado
Ficou em muitas famílias
Para sempre tatuado

Lesões no corpo e na mente
Assassinatos brutais
Comoveram nossa gente
Arrancaram nossa paz
Resta um apelo premente
Não se repitam jamais

Anônimas ou conhecidas
Estas mulheres merecem
Justiça por suas vidas
E não apenas as preces
Não sendo a lei cumprida
O direito, então, fenece

Chorando nossas Yaras
Nos encontramos então
Soraias, Anas e Laras
Não faleceram em vão
As Marias que ficaram
Com certeza lutarão

Acredito que nós todas
Podemos tentar de novo
Devagar, sem desistir
Como pintinho no ovo
Bicando aqui e acolá
Somando com nosso povo

Não deixe que este verso
Seja mera distração
Sinceramente, confesso
Não foi esta a intenção
Quero que lhe seja útil
Em alguma ocasião

Devo esclarecer a tempo
Que nossa luta é igual
Companheiro e companheira
Vitimas do capital
Somente a nossa união
Destruirá este mal

A vitória não se espera
É preciso conquistar
A luta começa hoje
Basta você se engajar
Acredite, companheira
Nunca é tarde pra lutar.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Maria, Helena

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Intercalando um bendito
Com leituras do meu ser
Tirei do dito o não-dito
Fiz a reza estremecer
Acordei fiz um cordel
Tatuando num papel
Um romance pererê

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Fui montando minha peça
Pra Orlando encabeçar
Vai trazer prazer à beça
Pro povo do Ceará
Não tem príncipe encantado
Nem cawboy gay potentado
Mas tem beata a gozar

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Se este não é seu lema
Não se perca no dilema
Vá pra outra frequesia)

Maria amando Helena?
Helena amando Maria?
Numa casinha pequena?
No pingo do meio-dia?
Maria amando Helena?
Helena amando Maria?
Quem as imaginaria?

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Ajeite logo a antena
Não posso perder a cena
Grita Dona Maresia)

Maria, amada de Helena
Helena, amor de Maria
Veja que belo poema
Cheio de luz e magia
Inspira-me este tema
Quero levar pro cinema
De arte da cercania

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Tragam-me uma algema
Eis o meu estratagema
Pra cuspir na burguesia)

Maria e sua Helena
Nasceram neste lugar
Na Baixa da Siriema
Perto do Rio Quicuncá
Os mais velhos dizem delas:
“São duas moças donzelas,
Fale quem quiser falar”

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Tire do ovo a gema
Bote na clara um trema
Arribe, vá pra Bahia)

Maria é meio calada
Vive da agricultura
Helena tange a boiada
E também faz escultura
As duas são benzedeiras
Nordestinas, brasileiras
Força, fé e formosura

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
(Ufa, cadê meu esquema?
Tô perdendo a energia)

Maria que é (de) Helena
Helena que é (de) Maria
Ninguém aqui as condena
-assim falou minha tia -
“Uma é fulô de açucena
A outra, bela morena”
As duas têm empatia

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Pegue logo o castiçal
Uma vela não faz mal
Para afastar heresia)

Helena ajuda Maria
No seu plantio de feijão
A ela faz companhia
Nalguma renovação
Só andam emparelhadas
Nas noites enluaradas
Deste querido torrão

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
(Eu nunca mais vi Moema
Trepada numa jurema
Querendo dá agonia)

Maria que é devota
Do Padim Ciço Romão
Um dia já foi cambota
Conforme a explicação
Sua mãe fez um pedido
E sendo ele atendido
A graça se fez, então

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Com suas pernas perfeitas
Maria vive a orar
Anda sempre satisfeita
Todo ano a jejuar
Nos dias vinte do mês
Tira o vestido xadrez
Põe preto no seu lugar

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Helena que aprecia
As festas de apartação
Sempre leva a “novia”
Lá para a Exposição
Lembra com voz embargada
De quando montou Pintada
Numa noite de São João

Helena ama Maria
Maria ama Helena
Não é Mundo de Sofia
Nem é novela chilena
É romance sub-urbano
Latino-americano
Folk-love em quarentena

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Maria vive pra Helena
Helena só pra Maria
Maria diz “ô Helena”
Helena diz “oi Maria”
“Vem aqui de junto d’eu
Presente que Deus me deu
Minha bela estrela guia”

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Helena diz a Maria:
“Tu é que nem vaga-lume
Por onde anda alumia
Do piso inté o cume
Tu só me dá alegria
Por ti mil vez eu faria
A Antõe Cruize ciúme”

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

As duas levam a vida
Agradecidas demais
Quando não estão na lida
Estão celebrando a paz
Já diz o velho ditado
“o que é bom ta guardado”
Só as entende quem faz.

Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Helena ama Maria
Maria ama Helena
Assim dizia a novena
Que meus ouvidos ouvia

Sei que Maria é Helena
E que Helena é Maria
E se Maria ama Helena
Também Helena a Maria
Mais uma vez a novena
E tudo se concatena
Pão nosso de cada dia!

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

MULHER TAMBÉM FAZ CORDEL


O folheto de cordel
Que o povo tanto aprecia
Do singelo menestrel
À mais nobre academia
Do macho foi monopólio
Do europeu foi espólio
Do nordestino alforria

Desde que chegou da França
Espanha e Portugal
(Recebido como herança)
De caravela ou nau
O homem o escrevia
Fazia a venda e lia
Em feira, porto e quintal

Só agora a gente vê
Mulher costurando rima
É necessário dizer
Que de limão se faz lima
Hoje o que é limonada
Foi águas podre, parada
Salobra com lama em cima

A mulher não se atrevia
Nesse campo transitar
Por isso não produzia
Vivia para seu lar
Era o homem maioral
Vivia ele, afinal
Para o mundo desbravar

Tempo de patriarcado
Também de ortodoxia
À mulher não era dado
Sair pela cercania
Exibindo algum talento
Pois iria a julgamento
Quem não a condenaria?

Era um tempo obscuro
Para o sexo feminino
O castigo era seguro
Para qualquer desatino
Como não sabia ler
Como podia escrever
E mudar o seu destino?

Sem ter a cidadania
Vivendo vida privada
Pouco ou nada entendia
Não era emancipada
Só na cultura oral
Na forma original
Se via ela entrosada

Nas cantigas de ninar
Na contação de história
Tava a negra a rezar
A velha sua memória
Porém disso não passava
Nada ela registrava
Para sua fama e glória

Muitas vezes era tida
Como musa inspiradora
Aquela de cuja vida
Tinha que ser sofredora
Era mãe zelosa e pura
Qual sublime criatura
Porém não era escritora

Sempre a versão do homem
Impressa nalgum papel
Espero que não me tomem
Por feminista cruel
Mas o fato é que a mulher
Disto temos que dar fé
Tinha na vista um véu

O homem que a desejava
Queria-a qual princesa
Sempre que a venerava
Era por sua beleza
Só isto tinha virtude
Para macho bravo e rude
Mulher com delicadeza

De sua cria cuidando
Cosendo calça e camisa
Para o homem cozinhando
Como vir ser poetisa?
Isto era coisa para macho
Até hoje ainda acho
Gente que assim profetiza.

Até porque o folheto
Era vendido na feira
E era um grande defeito
Mulher sem eira nem beira
Era preciso viagens
Contatos e hospedagens
Pra fazer venda ligeira

E durante muitos anos
Assim a coisa se deu
Em muitos cordéis tiranos
A mulher emudeceu
O homem falava dela
Mas não falava com ela
Nem ela lhe respondeu

Ocorre que em trinta e oito
No ano mil e novecentos
Um fato dito afoito
Veio soprar outros ventos
Uma mulher escreveu
No cordel se intrometeu
Mostrando novos talentos

Talvez seja o primeiro
Cordel de uma mulher
Neste solo brasileiro
Nenhum registro sequer
Confere a este fato
Que seja o dito exato
Mas não é coisa qualquer

Filha de um editor
Família de trovadores
Se esta mulher ousou
A ela nossos louvores
Mas temos a lamentar
Porque não pode assinar
O verso como os autores

Não era uma desvalida
Que escrevia um cordel
Mas uma moça entendida
Parente de menestrel
Mesmo assim se escondia
Pois a vida requeria
Não assumir tal papel

A Batista Pimentel
Com pré-nome de Maria
Não assinou o cordel
Como a história merecia
Mas que o destino tirano
Um Altino Alagoano
Era quem subscrevia

Pseudônimo usou
Para a obra ser aceita
O marido orientou:
“Assim tudo se ajeita”
Tava pronto pra vender
Quem poderia dizer
Ser o autor a sujeita?

Neste tempo já havia
Escola, educação
Alguma mulher já lia
Tinha certa instrução
Tinha delas que votavam
Outras até trabalhavam
Nalguma repartição

Outro tempo aparecendo
Reclamando outra postura
A população crescendo
Emprego e certa fartura
Indústria se instalando
O povo se empregando
Buscando alguma leitura

Mas foi muito gradual
No campo do popular
Tinha aqui um bom sinal
E um retrocesso acolá
No nordeste nada é reto
Até hoje analfabeto
Não conhece o beabá

Somente em setenta e dois
Vicência Macedo Maia
Viria escrever depois:
Nascia o verso de saia!
No estado da Bahia
Deu-se a tal rebeldia
Que hoje não leva vaia

Depois disso, alagoana
Potiguar e cearense
Também tem a sergipana
Paraíba e maranhense
Tem delas no Piauí
Também estão a surgir
Paulista e macapaense

Em todo o nosso Brasil
Mulheres versejam bem
Muito verso se pariu
Não se excluiu ninguém
Tem rima a dar com pau
-acho que me expressei mal-
Pois com a vagina também

Mas a grande maioria
Se concentra no nordeste
Onde um dia a poesia
Era do cabra da peste
Hoje as mulheres estão
Rimando e não é em vão
Do litoral ao agreste

Talvez seja sintomático
Que o cordel no sertão
Ainda seja simpático
E noutros lugares não
O tal cordel já foi tido
Como jornal e foi lido
Em muita ocasião

Serviu para ensinar
Muita gente aprender a ler
Serve para recitar
E muita gente entreter
Cordel é sempre estudado
Em tese de doutorado
Mas tem gente que não vê

Alguns pensam hoje em dia
Que cordel é só tolice
Que não tem categoria
Que é mera invencionice
Feito por homem, não presta
Por mulher então, detesta
Veja quanta idiotice

Mesmo assim elas versejam
E muito bem por sinal
Algumas até desejam
Ir para uma bienal
Mostrar a nossa cultura
A nossa literatura
Etecetera e coisa e tal

Versos de todos os matizes
De toda forma e cor
Algumas são infelizes
Reproduzindo o horror
Do machismo autoritário
Consumismo perdulário
Que tanto as dominou

Mas são as contradições
Presentes neste sistema
Onde mulheres padrões
Vivem também nos esquemas
Eu só quero é celebrar
Da mulher o versejar
Longe dos velhos dilemas

Nosso tempo nos permite
Botar o verso na rua
Quem vai colocar limite
Quem ousa sentar a pua?
Cordel também é cultura
Quem nunca fez a leitura
Iletrado continua

O cordel é centenário
Nesse Brasil de mistura
É recente no cenário
Da fêmea a literatura
Só estamos começando
Devagar, engatinhando
Quem agora nos segura?

Trinta cordéis eu já tenho
Publicados pelo mundo
Mais uma vez me empenho
Me emocionando no fundo
Metade é sobre mulher
Para mostrar como é
Amor e verso profundo

Aqui encerro meu verso
Cumprindo o meu papel
Se ele foi controverso
Deselegante ou pinel
Só quis dizer para o povo
O que pra alguém é novo:
Mulher também faz cordel!

MEU PAI

Meu pai por ser um pedreiro,
Dele muito me orgulho
Sempre foi muito guerreiro
Homem de muito barulho
Seja mexendo o cimento
Seja curando o tormento
Ele desata o embrulho

Sempre foi desenrolado
Atento, astuto, sabido
É homem pouco letrado
Porém muito esclarecido
Por isso nesse cordel
Reconheço seu papel
De pai teimoso e querido

Nascido em 44
No nordeste brasileiro
Um cearense de fato
Um matuto, um roceiro
Arribou de Várzea Alegre
Jovem, à sorte entregue
Foi se arranchar no Granjeiro

Chegou pela Cana-Brava
Trabalhou, foi serviçal
Arroz, feijão apanhava
Cuidou também de animal
Era um rapaz arrojado
Nunca foi acomodado
Era este um bom sinal

Viveu nas casas alheias
Longe do seu “habitat”
Ia acanhado pra ceia
Era comum se deitar
Em qualquer canto do chão
Porque não tinha um tostão
Pra uma rede comprar

Porém como desejasse
Melhorar a sua vida
E muito se interessasse
Em sair daquela lida
Resolveu então partir
Pra muito longe dali
Onde lhe dessem guarida

Sonhava em ir para o sul
E arranjar um emprego
Mirava o céu azul
Como quem quer um brinquedo
Mas um dia decidiu
Da Cana-Brava partiu
Foi enfrentar o seu medo

Nesse tempo já gostava
De quem hoje é minha mãe
Que ficou na Cana-Brava
Numa angústia sem “tamãe”
Foi lá pros anos 60
Que segundo ele comenta
“Havia progresso e gãe”

Fugindo do desemprego
No tal êxodo rural
Meu pai foi pedir arrêgo
Na maior das capital
E se vendo sem dinheiro
De lavrador a pedreiro
Subiu na vida, afinal

O ofício era pesado
Mas tinha de trabalhar
Ficava admirado
Com tantos prédios no ar:
“São Paulo é feito das mão
Dos nordestinos irmão
Que não param de chegar"

Depois dum tempo in Sampa
- tijolo, massa, cimento-
Viu um bem-te-vi que canta:
“na cacunda d'um jumento”
Era um quadro na parede
"No lugar de botar rede
Eles botam é monumento"

Quando juntou uns tostão
Veio para o Ceará
Somente pedir a mão
Desta que ficou por cá
Em poucos dias casou
E a esposa levou
Pra no sul dele cuidar

Cada ano que passava
Um filho via nascer
Em São Paulo um brotava
No Ceará, outro ser
Ao todo tiveram seis
Sou a segunda da vez
Cá estou para escrever

Por três décadas seguidas
Meu pai ia e voltava
Pontilhava nossas vidas
Ou cá, ou lá ele estava
Edificando a cidade
E perdendo a mocidade
Enquanto a gente estudava

Tijolo sobre tijolo
Ferro, massa, telha e cal
Aniversário sem bolo
São João, finados, Natal
Onde era mato, um produto
Igreja, escola, viaduto
Shopping, motel e canal

Seguia a vida querendo
Não fracassar, nem sofrer
Algumas noites bebendo
Outras no frio, a tremer
Muitas agruras passou
Até que o álcool deixou
E nunca mais quis beber

Fez muita casa aonde
A vida parece bela
E o arranha-céu esconde
Os barracos da favela
Deixou em cada azulejo
Tatuado um desejo
Que fosse aquilo novela

Viu o progresso de perto
E a miséria do lado
Falava de peito aberto
Com seu sotaque arrastado
“Eta sul fí d’uma égua
Um dia dou uma trégua
Vendo meus filho formado”

Enfim comprou uma terra
Nem míni nem latifúndio
Teve que entrar noutra guerra
Fazendo um corte profundo
Depois duma cirurgia,
Mudou o seu dia-a-dia
E retornou pro seu mundo

Voltou a viver no mato
Conforme sempre gostou
Mas não perdeu o contato
Com o mundo exterior
Agora rega o estrume
Contempla o vaga-lume
Colhe laranja e fulô

Deixou o prumo e a linha
Pegou enxada e pá
Tem lá a sua casinha
E terra pra cultivar
Merece a minha homenagem
Porém não tenho coragem
Desse verso recitar

Hoje é homem da lida
Do trabalho no roçado
Retornou à velha vida
Mesmo estando cansado
Pois para se aposentar
Teve ele que provar
Que nunca ficou parado

Mesmo assim ele é feliz
Porque no mato nasceu
Voltou a sua raiz
(o pedreiro não morreu)
Ressurge o agricultor
Com quem mamãe se casou
E deu origem a eu

Terminando esse poema
É preciso relembrar
Que o pedreiro foi tema
Pra um poeta exemplar
O grande Chico Buarque
Traduziu na sua arte
O seu valor singular

Com os olhos embebidos
Entre lágrima e cimento
Mas quase nunca esquecidos
Dessa vida de tormento
Subindo o patamar
Ou na roça a plantar
Reconheço seu talento

Operário em construção
Autoridade paterna
Homem de convicção
De atitude fraterna
Meu pai, um grande herói
A sua história constrói
A idéia que nos governa!

O GRITO DOS "MAU" ENTENDIDOS

Era uma assembléia
Só de homossexuais
Era geral a geléia
Havia gente demais
O discurso era polido
Todo mundo era entendido
Nas ciências sociais

Chegou a televisão
E o jornal foi chamado
Não podia ser em vão
(Que evento do babado!)
O roxo e o rosa-choque
Prometiam dar ibope
(gay adora ser filmado)

Algo cultural rolava
Antes da programação
Chico César animava
Com uma bela canção
Logo se comprometeu:
“Esse homem nu sou eu”
-olhos de contemplação!-

Disse ainda sem pudor:
“eu já fui mulher, eu sei”
Vitor Fasano gritou:
“Eu to gostando, meu rei”
Pepeu Gomes aplaudindo:
“Já fui homem feminino,
Fiz escola, inaugurei...”

Cássia Eller convidada
Cantou exibindo a teta
Uma garota excitada
Pedia outra faceta
De repente o som parou
Ângela Ro Rô chegou:
“porrada ou um som porreta?”

Quando recitou Bethânia
A turma ficou ligada:
“quando você me entendeu
Eu não entendia nada”
Calcanhoto, seu recado:
“transito entre dois lados”
É verdadeira cantada.

Um amor tão delicado
Nenhum homem (lhe) daria
“Caetano tá enganado"
Grita João, brada Maria
Neste evento inusitado
Não há como ser lembrado
Se não for por alegria

Os crachás distribuídos
As teses por todo lado
Líderes já escolhidos
Para um debate animado
O “dignidade já!”
Era a senha pra entrar
Bastava ser delegado

A imprensa esperava
Um “furo” para mostrar
Mas ao passo que falava
Gabeira entrava no ar
Politizou o debate
E lançou um xeque-mate:
“gay também sabe votar”

Disse ele: “hoje eu sei
E o Brasil precisa ver
Que o movimento gay
Existe e é pra valer
Pra bater no preconceito
Pra lutar pelo direito
De amar e de viver!

O entendido precisa
Também se organizar
Tem de vestir a camisa
(de Vênus, é bom lembrar)
Neste mundo desigual
Quem for homossexual
Também precisa lutar!

É grande o preconceito
Contra o homossexual
Exijamos mais respeito
Da lei e do tribunal
Imposto também pagamos
Basta! Já não toleramos
A pecha de marginal

A violência também
Precisa ser combatida
Não é dado a ninguém
Manipular nossa vida
Ele ou ela, não importa
Se fulaninha “é morta”
Que seja uma morta-viva!

AIDS e DST’s
Assolam nosso habitat
Vamos fundar comitês
E contra elas lutar
Vamos junto com o povo
Construir um mundo novo
Onde o lema seja amar”

Ouvindo tudo calado
Um homem ficou de pé
Na roupa tinha um bordado
Escrito: “Jesus me quer”
Gabeira disse: você
Tem algo a nos dizer?
E ele: meu nome é Dé!

O povo todo aplaudiu
E ele continuou
Confessou usar “renew”
E disse: “sou o que sou,
“E venho de uma terra
Onde um padre, numa serra
Um dia me abençoou”

Ele invocou São Francisco:
“é dando que se recebe”
E elogiou Corisco:
“Mas Dadá é o que se pede”
E disse, sem preconceito:
“O rio só corre no leito,
Enquanto a margem não cede”

“Falsa é a sociedade
Que nos cospe e abomina
Eu lhes digo, em verdade
Ser ‘alegre’ é minha sina
Se um dia nasci homem,
Mesmo que tudo me tomem
Eu sempre quis ser menina”

“Por que não amaldiçoam
Os governos de opressão?
Por que só de nós caçoam
Diante da multidão?
O povo tem que entender
Porque o gay pode ser
Seu primo, pai ou irmão”

Ademais eu vou falar
-escute amigo meu-
“se o povo de Quixa(dá)
E se também Ama(deu)
Se o povo do Su(dão)
Ta(deu) para seu irmão
Por que não posso dar eu?”

E o debate seguiu
Num nível sempre elevado
Uma garota pediu
Que o tempo fosse marcado
Após as resoluções
Serviram as refeições
E um filme foi mostrado

Foi Aimeé e Jaguar
O filme que se exibiu
Um romance pra lembrar
Até o mês de abril
Quando o povo então verá
Os “mauditos” do Juá
Gritarem para o Brasil

O grito de que se fala
É o do “mau” entendido
Aquele que o mundo cala
Tal qual o mal resolvido
Pois o grito que escutei
Não foi o “ai, eu gozei!”
Foi o grito do oprimido

E para finalizar
Confesso que acordei
Fiquei então a pensar
Naquilo com que sonhei
É bom que não fique torto
O grito do povo morto
Eu só psicografei.

domingo, 27 de julho de 2008

CIDADANIA Nome de Mulher


Quando minha bisavó
Vivia pelo sertão
Era um tempo de aperreio
Era grande a precisão
Mulher não tinha direito
Pro homem tudo era feito
Só ele era cidadão

Era comum se ouvir
Que mulher vive é calada
Faz a vontade do homem
Para não ficar “falada”
A mulher era um objeto
Casava pra ter um teto
E cuidar da filharada

A mulher também não tinha
Nenhum prazer sexual
Nem mesmo sonho ou desejo
Vivia como animal
Servia sempre seu dono
Ou caía no abandono
Era o destino fatal

Se quisesse trabalhar
Seria dentro de casa
Estudar era um perigo
Pois podia criar “asa”
A família exigia
Q’ela se casasse um dia
Pra ver se desencalhava

Era grande o sofrimento
Da mulher daqueles dias
Não se falava em direito
Tudo isso era utopia
Bastante coisa mudou
Mas ela continuou
Vítima da covardia

Lutar, eu sei que lutou
Se pôs contra a monarquia
Deu à luz o cidadão
Mesmo sem cidadania
Se organizou, foi à rua
Rasgou o véu, ficou nua
Pugnou por alforria

Enfrentou os militares
Disse: “queremos votar”
Ajudou fundar partidos
Deixou de silenciar
Lançou sua voz ao vento
No Poder tomou assento
Conseguiu se emancipar

Por conta de sua luta
Um preço sempre pagou
Pois mentes reacionárias
O mundo sempre gerou
Mas foi no capitalismo
Onde o crescente machismo
Outras proporções tomou

Variadas são as faces
Dos crimes contra a mulher
A violência velada
Ninguém vê, ninguém dá fé
Mas quando é ostensiva
O mundo todo se esquiva
“e ninguém mete a colher”

Há casos onde a vítima
É tida como culpada
O mundo todo pergunta
Pelo que fez a finada
Como querendo saber
Se ela fez por merecer
Ter a vida abreviada

A opressão feminina
É algo muito cruel
E apesar dos direitos
Insculpidos no papel
A violência avança
Matando até criança
De forma torpe e cruel

Aqui no meu Cariri
Dos limites já passou
Pois diversas companheiras
O machismo já matou
Foi crime de toda forma
E que ninguém se conforma
Passe quanto tempo for

Mulher de todas as classes
De idades variadas
Algumas desconhecidas
Outras identificadas
Morreram barbaramente
Mas seus algozes contentes
Estão soltos, a dar risadas

Mas vamos somando braços,
Mãos, cabeças, coração
Sigamos os nossos passos
Nenhuma luta é em vão
A conquista do presente
Foi no passado a semente
Que se plantou nesse chão

Para se fazer justiça
Não há só o tribunal
A gente também conquista
A luta em palco real
Pois se o governo demora
E o parlamento ignora
É porque votamos mal

Vamos mostrar que pensamos
E procriamos idéias
E que não só menstruamos
Gritemos em assembléia
Cidadania se quer
E tem nome de mulher
Eis a nossa epopéia

Uma questão de justiça
Estamos a colocar
Ninguém pode ser omissa
O tempo é de lutar
“Cidadania-Mulher”
É tudo que a gente quer
Não podemos mais calar

Não é justo que hoje em dia
Nada possamos fazer
Pois se vovó não queria
Desta maneira viver
Como poderemos nós
Quase cem anos após
À opressão nos render?

Eis o nosso desafio
É preciso matutar
Vovó não tinha direito
Mas hoje direito há:
Para que cidadania?
Só pra rimar com Maria?
Ou pra se exercitar?

Repito: cidadania
Já tem nome de mulher
Se não vem delegacia
Então mostremos quem é
A autoridade vil
Que com má-fé e ardil
Faz conosco o que bem quer

E pra finalizar
Um convite a OAB
(Para a luta não parar
Para não arrefecer)
Vamos nos somar agora
“pois quem sabe faz a hora
Não espera acontecer”