Cordelirando...

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Neste blog você encontrará alguns cordéis de Salete Maria, bem como notícias acerca de sua produção e seu diálogo com outros artistas
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Lugar de Mulher, recitado por Salete Maria

segunda-feira, 28 de março de 2016

MULHERES ADVOGADAS (habeas bocas, companheiras!)



MULHERES ADVOGADAS
(habeas bocas, companheiras!)

Somos muitas, somos tantas
E somos cada vez mais
Por esse país imenso
Buscando justiça e paz
Mulheres advogadas
Somos firmes na jornada
Sem esmorecer jamais

Nossa presença na Ordem
Cada vez mais se agiganta
E contra toda desordem
Nossa voz se alevanta
Em prol da democracia
E de mais cidadania
Pois essa luta adianta

Atuando em todo canto
Por essa imensa nação
Batalhando sem espanto
Mas com intensa paixão
Assim marchamos altivas
Fortes e persuasivas
Honrando a profissão

Enfrentando desafios
Nas lides do dia a dia
Nadando em mares bravios
Com destemor e energia
Valorizando o mister
Com garra, amor e fé
Competência e alegria

Enfrentando o machismo
Racismo e homofobia
Sorvendo dos feminismos
Toda a sua teoria
Assim vamos avançando
Questionando e destronando
Padrões e assimetrias

E neste mês da mulher
No ano da advogada
Aqui estamos de pé
Fortes e determinadas
Contra discriminações
Violências e opressões
Que surgem na caminhada

Em prol de mais igualdade
Nas relações laborais
Respeito à diversidade
E por um mundo de paz
Dentro e fora dos lares
Bem como entre nossos pares
Assim justiça se faz

Por mais valorização
Da mulher advogada
Por uma educação
Onde sejam contempladas
As demandas femininas
Pois equidade não rima
Com vozes silenciadas

Clamamos por igualdade
Real e substantiva
Contra a disparidade
Que nos deixou à deriva
Por muitos anos a fio
Dentro e fora do Brasil
Quase sem alternativa

Ter paridade é preciso
Dentro de nossa entidade
E salvo melhor juízo
Não temos isso, em verdade
Pois para além de falar
Nós sabemos governar
Respeitando a outra metade

Vamos colocar em prática
O Plano que valoriza
A mulher advogada
E serve como baliza
Para mudanças concretas
Pois essa é a nossa meta
E é isto que o plano visa

Segundo as diretrizes
Teremos mais atenção
E seremos as atrizes
De toda transformação
Vamos poder opinar
Discutir e agregar
Nossa contribuição

É um passo importante
Que se dá na OAB
Num momento relevante
Onde é preciso aprender
Que o sujeito mulher
Justiça de gênero quer
Para ninguém mais perder

É importante lembrar
Que muitas de nós lutamos
Noite e dia sem cessar
E durante muitos anos
Pelo fim da iniquidade
Que ainda é realidade
No solo que nós pisamos

Defendendo outras mulheres
E a nós mesmas também
Metendo nossas colheres
Onde e quando convém
Em prol de outra Justiça
Menos silente e omissa
Ou do machismo refém

São muitos anos de estrada
E a história é pouco contada
Mas deve ser resgatada
E bastante disseminada
Nos cursos de formação
E em toda ocasião
Onde a questão for tratada

Por uma questão de justiça
Advogadas docentes
Não podem ficar omissas
Ou mesmo estar ausentes
Dos debates nacionais
Pois nos dias atuais
Pesquisas são eloquentes

Pois revelam contributos E sugerem soluções Mostram o que está oculto Propõem teorizações Aprimoram o Direito E combatem preconceitos Rompendo velhos grilhões

Salve o legado histórico
De diversas feministas
Salve o momento eufórico
Que vai revelando pistas
Do que antes se pensou
Se plantou e cultivou
Pra hoje saltar à vista

Salve Myrtes Gomes Campos
A primeira advogada
Salve tantas companheiras
Que nem sempre são lembradas
Salve as novas gerações
Das que vem lá dos sertões
Negras, índias, engajadas

Viva cada advogada
Deste país-continente
Que seja iluminada
E cada vez mais presente
Nas lutas por igualdade
Justiça e fraternidade
Que animam nossa gente

Por fim, desejo lembrar Nesta nobre ocasião Que a justiça não é cega Fala e tem audição E se a Ordem aprovou Este verso entra em vigor Com sua publicação


Salete Maria da Silva
OAB-BA 48425
Março de 2016

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

PRA VIDA SER MAIS BACANA (FELIZ ANIVERSÁRIO, GABRIEL)





Meu sobrinho Gabriel
Faz mais um ano de vida
Pra ele eu tiro o chapéu
Pessoa linda e querida
Seu nome fui eu quem deu
Pois quando ele nasceu
Fiquei super comovida 

Dezessete de novembro
Que jamais vou esquecer
Ainda hoje me lembro
Da carinha do bebê
Que chegou para animar
E também pra bagunçar
Nosso jeito de viver

É o quinto filho da mãe
- minha querida irmã –
Que faz o papel de pãe
Professora e cidadã
Pois luta para educar
Amar e alimentar
O conjunto do seu clã

Ali na rua São Bento
Onde a tribo se esconde
Biel cresce mui atento
E já faz parte do bonde
Dos que gostam de leitura
Mas não toleram frescura
De quem se julga visconde

Ele tem desenvoltura
E sabe se expressar
Gabriel é uma figura
Fácil da gente amar
Adora literatura
Arte e arquitetura
E ainda sabe dançar

Curte música e poesia
Se interessa por cinema 
Tem lá suas rebeldias
E as vezes causa problema
Mas até nisso ele é bom
Pois ele já tem o “dom”
De criticar o sistema

Sua cu-ri-o-si-da-de
Fazer dele um pesquisador
E desde tenra idade
Fala como um professor
Pois gosta de explicar
E também de meditar
Como um jovem pensador

Gabriel é meu xodó 
É o queridinho da tia
Pois nunca me deixou só
Quando com ele eu vivia
A gente se dava bem
E ria como ninguém
Das nossas estripulias

Se eu fosse me exercitar
Gabriel ia comigo
Se eu fosse trabalhar
Ele ia envaidecido
Até se eu fosse brigar
Gabriel estava lá
Sem ter medo do perigo

Se eu me candidatasse
Gabriel era meu fã
E ai de quem me humilhasse
Ou xingasse o meu afã
Gabriel me defendia
E nele eu sempre via
O sol de cada manhã

Que pena que eu me mudei
E ele também mudou
Mas jamais esquecerei
De quem tanto me inspirou
Gabriel, o meu anjinho
Está ficando mocinho
E nunca mais me ligou

Completa catorze anos
La no sul do Ceará
Desejo que os seus planos
Possam se concretizar
Que tenha paz e saúde
Amor e muita atitude
Para o mundo melhorar 

Que seja muito fiel
Aos valores que cultiva
Que siga sendo o Biel
Cheio de iniciativa
Que saiba reconhecer
E também agradecer
Pela mente criativa

Que siga sendo amoroso
E também bem-humorado
Que o sorriso caloroso
Jamais seja abandonado
Que seja muito feliz
E continue aprendiz
Do bem que foi ensinado

Parabéns por esta data
E pelo seu existir
Por ser um autodidata
Que vive a inquirir 
O que não vê na escola
E muita gente ignora
Mas você quer descobrir

Receba o meu abraço
De Olga e de Davi
E este cordel que faço
Para te mandar daqui
Dessa Bahia encantada
Que somente é superada
Pelo nosso Cariri 

Receba bênçãos e flores
Que mando em pensamento
Luzes de todas as cores
E os melhores momentos 
Que guardo no coração 
Cheinho de emoção
E de muitos sentimentos 

Receba um “muito obrigada”
Só por você existir 
Que seja longa a estrada
E lindo o seu porvir 
Que a paz reine na mente
E que te faça contente
Do acordar ao dormir

Celebre bem o seu dia
Junto do povo que ama
Que seja grande a folia
E dure toda a semana
Pois viver é alegria
E você nasceu um dia
Pra vida ser mais bacana!

Salete Maria
Salvador-BA, 17/11/2015

sábado, 4 de julho de 2015

Respeitem a Presidenta



RESPEITEM A PRESIDENTA

Eu vi pela internet
E não quis acreditar
Uns adesivos machistas
Que estão a circular
Ofendendo a presidenta
E toda mulher que há

Trata-se de uma imagem
Que estimula a violência
E é preciso combatê-la
Pra manter a coerência
Na luta contra o machismo
E pela sobrevivência

A cultura do estupro
Não se deve propagar
Venha de onde vier
Não devemos aceitar
Tal violência de gênero
A nos desqualificar

Se o governo vai mal
E você quer protestar
Use de bons argumentos
Para os erros apontar
Mas não ofenda a pessoa
Que está a governar

Exercite seus direitos
Pois é livre a expressão
Mas evite preconceitos
Ou a disseminação
De ódio e intolerância
No seio dessa nação

Não reforce o sexismo
Ou a tal misoginia
Exponha suas razões
Mas evite a baixaria
Do contrário se prepare
Pra ir à delegacia

A conduta criminosa
Não podemos tolerar
E campanha insidiosa
É preciso rechaçar
Que seja penalizado
Quem disto se ocupar


A ofensa a presidenta
Fere todas as mulheres
Avilta nossa imagem
Esses tais caracteres
Vamos barrar o machismo
Metendo nossas colheres

Vamos ficar vigilantes
Pra poder denunciar
Nada será como antes
Pois nós sabemos lutar
Respeitam a presidenta
Ou vão ter que encarar

Podemos não concordar
Com os tais ajustes fiscais
Mas agressão às mulheres
Não toleramos jamais
Nós merecemos respeito
E uma vida plena de paz

Protestemos com razão
Rua abaixo e rua acima
Até na televisão
Pois ela também ensina
Não é só por Dilma, não
É por toda uma nação
Dignamente feminina!

Autora: Salete Maria

Salvador, 03/07/2015

sábado, 25 de abril de 2015

FEMINISMO EM CORDEL: como foi que começou?



Eu já perdi foi a conta
Das vezes que perguntaram
Como foi que começou
E que fatos inspiraram
O meu cordel feminista
Que inaugurou a lista
De tantos que se somaram

Como já disse outras vezes
Em entrevistas que dei
Eu nasci numa família
Onde o cordel era rei
Pois meu clã analfabeto
Tinha um baú repleto
E declamar era a lei

Meu avô ia pra feira
Comprar farinha e feijão
Levava um saco de pano
E um dinheirinho na mão
Trazia o fumo e o folheto
E voltava satisfeito
Nas quebradas do sertão

Na casa que ele morava
Somente uma pessoa lia
Mas muita gente sentava
Para escutar minha tia
Lendo versos a granel
De príncipe e coronel
E do valente Zé Garcia

Quando eu me alfabetizei
Minha avó me intimava
Ela queria testar
O que minha mãe contava
De que eu lia perfeito
E sabia ler dum jeito
Que a todo mundo encantava

Eu era muito criança
E sentava ali no chão
Rodeada de folhetos
De história de Lampião
De soldado e imperador
De santo e de doutor
Só tinha homem então

E quem mais apreciava
Era minha vovozinha
Que sempre me convidava
Para ler lá na cozinha
E ao debulhar o feijão
Ou ao socar o pilão
Um verso sempre convinha

Ela sabia de cor
Todo folheto que eu lia
E ao varrer o terreiro
Uns versos ela fazia
Falava sempre de amor
De fome, fé e calor
Filhos, roça e romaria

E eu amava essa avó
De nome Maria José
Que além de encantadora
Era uma pessoa de fé
Que me ensinava a ler
Mesmo sem ela saber
Como se escreve mulher

Então eu me perguntava
Por que não fazer um verso
Já que em todo folheto
Do homem era o universo
E lá pela adolescência
Já com outra consciência
Trouxe à tona o controverso

Eu nasci lá em São Paulo
Em face do êxodo rural
E meus pais sempre migravam
Quando as coisas iam mal
Do sudeste ao Ceará
E eu sempre ia parar
Naquele velho quintal

Foi assim por muito tempo
Da metrópole ao sertão
Folhetos iam comigo
Em toda ocasião
Na escola nunca os li
E daí eu resolvi
Lançar meus versos então

Há tempos eu escrevia
Porém nunca publicava
Assumi a ideologia
E por ela militava
Feminista-socialista
Isso já dá uma pista
Do que a mente tramava

Eu sequer tinha dinheiro
Para publicar cordel
Morava em Juazeiro
Onde há folheto a granel
A maioria machista
Racista ou direitista
Cumprindo triste papel

Ali eu era estudante
E também trabalhadora
Além de ser militante
De causas libertadoras
Diante de opressão
Violência e omissão
Lancei rima transgressora

Então no século vinte
No ano noventa e quatro
Eu dei à luz uma filha
E pari no mesmo ato
O meu primeiro cordel
Publicado em papel
De tradicional formato

Esse é o primeiro folheto
Segundo as pesquisadoras
Que denuncia o machismo
De forma arrebatadora
Falando de violência
E propondo resistência
Contra a cultura opressora

Trata-se de um manifesto
Contra o patriarcado
Publicado numa terra
Onde muitas tem lutado
Contra a frequente matança
De mulher e de criança
Que tem nos mobilizado

Foi assim que inauguramos
O feminismo em cordel
E assim continuamos
Rimando embaixo do céu
São muitos os exemplares
Que já atravessam mares
Cumprindo o seu papel

Vale dizer que a ideia
Era então dialogar
Com as mulheres do povo
Lá no sul do Ceará
Onde eu distribuía
Até mesmo em romaria
Quando eu vivia por lá

Com os meus parcos recursos
Eu custeava os cordéis
Usava em minicursos
Até entre bacharéis
Mas foi para estimular
Feminismo popular
Que eu ampliei o viés

Como nasci em favela
Filha de uma mulher preta
Trouxe a questão da classe
Descrita pela caneta
E o tenebroso racismo
Que com o capitalismo
Compõe a velha roleta

Assim narrei as histórias
Das mulheres oprimidas
Também registrei as glórias
Das que curaram feridas
Mulheres empoderadas
Que ao longo da caminhada
Vão avançando na vida

Discuti o oito de março
E a condição das mulheres
Que vão se organizando
E metendo suas colheres
Nos espaços de poder
De arte e de saber
Mudando caracteres

No Cariri cearense
Onde tudo começou
Pela voz de outras mulheres
Minha rima se espalhou
Foi pro teatro e cinema
Virando até novena
Dedicado ao meu amor

O cordel “Maria Helena”
E o “Lesbecause” também
Eu fiz pensando na cena
Do ato de querer bem
Entre duas lesbianas
Que ralam xana com xana
E ainda dizem amém

Além destes muitos outros
Como o “Lugar de Mulher”
Ou mesmo o “Mulheres Fazem”
Ou “O que é ser mulher?”
Tem sobre cidadania
E também biografias
Tem cordel pra quem quiser

E lá se vão mais de cem
Somente sobre este tema
Rimo ao que a vida convém
Este é meu estratagema
Pra debelar o machismo
Racismo e capitalismo
Enquanto estiver em cena

Meus cordéis vão por aí
Cumprindo sua missão
Na casa de Dona Joana
Ou naquela intervenção
Que as jovens estão fazendo
E com ela se atrevendo
Ao machismo dizer não

E para se espalhar mais
Do que já tem circulado
Em revistas e jornais
E em tese de doutorado
Minha querida Sammyra
Que é amante da lira
Criou um blog engajado

O “sítio” Cordelirando
Na página da web
Onde ela vai postando
Tudo que essa doida escreve
Permite que minha rima
Atraia feito um ímã
Todo mundo em tempo breve

Mas vale a pena lembrar
Que lá no ano dois mil
Um grupo de cordelistas
Pelo Cariri surgiu
Denominado Mauditos
Quebrando os interditos
E abalando o Brasil

Do grupo também fiz parte
E com ele me somei
Foi algo novo pra arte
E ali muito avancei
E o meu cordel feminista
Consolidou a conquista
Da qual muito me orgulhei

Então mais recentemente
Já em dois mil e catorze
Algo marcou minha mente
E melhorou minha pose
Pois um conjunto de amiga
Que comigo se interliga
Deram-me uma apoteose

Celebraram os vinte anos
Do meu modo de rimar
Foi o ato mais humano
Que pude experimentar
Amizade e muito amor
O Cariri preparou
Para a data registrar

Eu fiquei muito feliz
Vendo minhas companheiras
Ali perto da Matriz
Numa festa alvissareira
Feita com tanto carinho
Do qual provei o gostinho
Numa noite prazenteira

Foi mais ou menos assim
Que a coisa começou
E cresceu devagarim
Até que se espalhou
Pois meu cordel-feminista
E anticapitalista
É o que tenho de valor

Depois de mim outras rimas
Começaram a deslanchar
E eu fico muito contente
Pois gosto de estimular
Pois quanto mais é melhor
Pra eu não me sentir só
Neste meu cordelirar

Mas por questão de justiça
Eu reconheço a matriz
Pois ela foi a primeira
Cordelista de raiz
Que me inspirou nesta vida
Me dando amor e comida
E rima pra eu ser feliz

A velha Maria José
La do sul do Ceará
Mulher de fibra e de fé
Que nunca pode estudar
Foi o ser que me ensinou
E o meu cordel só brotou
Porque ela soube aguar

Amante da tradição
De cordéis masculinistas
Foi ela a inspiração
Para a neta feminista
Sem ela eu nada seria
Dela eu herdei energia
Para virar cordelista

Em resumo foi assim
Que a coisa aconteceu
Não houve antes de mim
Um cordel igual ao meu
Onde as mulheres existem
E dia a dia insistem
Em ocupar o que é seu

Por isso é que todo mês
Pras Deusas faço meu verso
Para agradecer à Fonte
Onde o Verbo está imerso
Minha avó, minha heroína
Eu sigo sendo a menina
Que ama teu Universo


Salete Maria

Abril/2015