Cordelirando...

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Neste blog você encontrará alguns cordéis de Salete Maria, bem como notícias acerca de sua produção e seu diálogo com outros artistas
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Lugar de Mulher, recitado por Salete Maria

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Afeto Feminista


AFETO FEMINISTA

Aquele cuidado lindo
Que encanta nossas vistas
Que aos poucos vai nutrindo
Nossa alma equilibrista
Que sacia nossa fome
A isto damos o nome
De afeto feminista


Aquela sinceridade

Que não se vê no sofista
Junto com a honestidade
Dos que são idealistas
É o sonho que nos consome
A isto damos o nome
De afeto feminista

Aquele acolhimento
Que nos faz mais otimista
Que aplaca o sofrimento
Com palavras intimistas
Tem amor no codinome
A isto damos o nome
De afeto feminista

Aquela compreensão
Do nosso ponto de vista
Que não põe em suspeição
E nem exige avalista
É fruto bom que se come
A isto damos o nome
De afeto feminista

Aquela ação concreta
Real e coletivista
Que a teoria completa
De forma não dualista
Capaz de ter sobrenome
A isto damos o nome
De afeto feminista


Aquela camaradagem
Que incomoda o machista
Que desmonta a engrenagem
Da roda capitalista
Deixa o racismo insone
A isto damos o nome
De afeto feminista

Aquele encontro de vidas
Que amplia nossa lista
Das pessoas mais queridas
Dentre tantas "alquimistas"
Que curtem a pedra-pomes
A isto damos o nome
De afeto feminista

Aquela escuta amorosa
Terna e voluntarista
Ou  dedinho de prosa
Num momento niilista
Não há força que lhe dome
A isto damos o nome
De afeto feminista


Aquela força tremenda
Nas fases mais derrotistas
Quando não há quem entenda
Tua crise existencialista
Vem de alguém que não some
A isto damos o nome
De afeto feminista

Aquela palavra certa
Que não se lê nas revistas
Quando tudo está uma merda
Nos espaços belicistas
Que embrulham o abdome
A isto damos o nome
De afeto feminista

Aquele abraço forte
Poderoso e altruísta
Que na dor serve de norte
Quando perdemos a pista
Q
ue ainda não tem renome
A isto damos o nome
De afeto feminista

Aquela sororidade
Que nos leva às conquistas
Na luta por igualdade
Por liberdade e justiça
Não existe quem nos tome
A isto damos o nome
De afeto feminista

Salete Maria
Salvador, 15/01/2018


Imagem: Susana Maria

sexta-feira, 27 de maio de 2016

NÃO à Cultura do Estupro



O estupro da menina
Nos convida a pensar:
Será essa a nossa sina?
Temos que nos conformar?
Ou temos que ir pra cima?
Já que a luta nos ensina
Que tudo pode mudar?

A cada onze minutos
Um estupro acontece
E não é um bicho bruto
Que da floresta aparece
Com seu “instinto insano”
E viola um ser humano
Conforme lhe apetece

É “gente civilizada”
Que estuda ou labora
Que cumpre sua jornada
Que vai à missa e chora 
Mas estupra uma mulher
Onde e quando bem quer 
Pois vê que ninguém dá bola

E pratica a violência 
Achando que está certo
Pois compartilha da crença
De que o homem esperto 
Não perde a oportunidade
De mostrar virilidade
Pois sempre estará coberto

Afinal nossa cultura
Acha normal explorar
O corpo de uma mulher
Em tudo quanto é lugar
Basta ver as propagandas
E as letras d’algumas bandas
Para ver como se dá

A cultura do estupro
Está em todo ambiente
Desde a casinha mais simples
Ao palacete imponente
Passando pela imprensa
Religião e ciência 
E no discurso eloquente

A ob-je-ti-fi-ca-ção 
Da imagem da mulher
A hiperssexualização 
Que o povo aplaude de pé
É uma autorização
Para a violação 
E quase ninguém dá fé

Estuprar uma mulher
Significa poder
E nossa sociedade
Ensina como fazer
Quando educa diferente
Ou mesmo quando consente
Um homem nos ofender

De onde vem a ideia 
Que a gente não tem valor?
Quem criou essa epopeia
Do macho devorador?
Que pode nos estuprar
Bater e até matar
E divulgar com furor?

Limpemos nossa retina
Para enxergar a história
E ver como essa cretina
Ainda nos ignora 
Pois narra os grandes feitos
Dos machos e seus direitos
Deixando a mulher de fora

Miremos as nossas casas
Escolas e outros espaços
Meninas são educadas
A ter direitos escassos
Meninos tem liberdade
E andam pela cidade
Sem ninguém seguir seus passos

Escutemos as conversas
Sobre os corpos femininos 
Atentemos para aquilo 
Que dizem nossos meninos
Pra ver se não é igual
Ao discurso social 
Machista e assassino

Olhemos bem para as ruas
E o assédio cotidiano
Sob o sol ou sob a lua
É só “fiu fiu” imperando 
E piadas de mal gosto
Ditas bem perto do rosto
Daquela que vai passando

Olhemos para a política
E os modos de governar
Será que alguém acredita
Que sexismo não há
No comando do país
Que hoje está por um triz
Sem mulher para opinar

Quem tem controle de tudo?
Quem manda, quem determina?
Quem acha que pode tudo?
Quem explora e domina?
Quem é “criado pra isto”?
Quem acha que tem um visto
Pra violar as meninas?

Tudo é naturalizado
Visto como algo banal
Mas as práticas revelam
O machismo estrutural
Que ainda culpa a mulher
Dizendo: “ela é quem quer
Ser estuprada, afinal”

O velho patriarcado
Ainda está em vigor
E o machismo é ofertado 
Como o melhor professor
Nos planos de educação
Por toda essa nação
Sem ter o menor pudor

Mas isso tem que mudar
Pois é preciso ter fim
O povo tem que acordar
E o Estado enfim
Precisa assumir a culpa
E acabar com a desculpa
De que as coisas são assim

Pois se cada estuprador 
Responde pelo seu ato
Conforme manda a lei
E assim deve ser, de fato
O machismo opressor
Que tanta dor já causou
Também pagará o pato

Precisa ser extirpado
Do convívio social
Não pode ser tolerado
Ou perdoado, afinal
Tem que ser eliminado
Morto e erradicado
Via educação geral

Pois se a cultura machista
Ensina a maltratar
E estuprar as mulheres
Ou até mesmo matar
Educar para a igualdade
E para a diversidade
É o que pode transformar

Sobre isto o feminismo 
Tem muito a nos ensinar
Já que fala de respeito
De direitos, de lutar 
Fala de democracia
Liberdade, autonomia
E d’outras formas de amar

Não à cultura do estupro
Não à dor e à violência
Não à exclusão de tudo
Não à tanta conivência 
Não ao machismo perverso!
E assim termino meu verso
Pedindo mais consciência!

Salete Maria
Salvador-BA, 26/05/2016