Cordelirando...

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Neste blog você encontrará alguns cordéis de Salete Maria, bem como notícias acerca de sua produção e seu diálogo com outros artistas
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Lugar de Mulher, recitado por Salete Maria

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

CONTRA ESSA PANDEMIA, UMA VACINA DE AMOR!


 Estamos há sete meses

Vivendo uma pandemia

Que surgiu entre chineses

Mas hoje está na Bahia

No Brasil e em toda parte

E nós usamos a arte

Pra falar desta agonia

 

São muitos infectados

Por este mundão afora

Tantos seres dizimados

E essa coisa só piora

Tantas mortes evitáveis

Discursos abomináveis

Nesta tão terrível hora

 

Há muita expectativa

Muita notícia veloz

Pra que a gente sobreviva

Neste sistema atroz

É preciso compaixão

Ética e comunhão

E união entre nós

 

Eis porque neste Sarau

Me somo a outras vozes

Num coro internacional 

Contra tiranos-algozes

Que não querem solução

Porém mais competição

Entre gigantes ferozes

 

Quando falam em vacina

Ou outro medicamento

O cifrão vem na retina

Dos que mandam no momento

Visando acumulação

Poder e mais opressão

Sobre todo um estamento

 

Assim é que o capital

Se alimenta e perdura

E numa crise mundial

Quer aumentar a gordura

Azeitando seus grilhões

Gerando mais exclusões

Sem dó, afeto ou ternura

 

E os que não cuidam da Terra

E de tudo que ela dá

Os que promovem a guerra

E todo o seu mal-estar

Buscam ter o monopólio

De todo esse portifólio

Que pode nos ajudar

 

Correm pra ser o primeiro

País que irá lucrar

Ou mesmo o pioneiro

De quem se pode comprar

Os produtos do saber

Para depois revender

Para quem pode pagar

 

Por isso a ONU precisa

Logo se pronunciar

De maneira bem concisa

Correta e sem vacilar

Contra controle e patente

E por um mundo decente

Onde a paz possa reinar

 

Eis a razão da Campanha

Com apelo mundial

Se opondo à barganha

E ao jogo comercial 

Em nome de toda vida

Pra termos uma saída

De cunho ambiental

 

Pois a saúde é direito

Que deve ser respeitado

E hoje todo sujeito

Tem que ser considerado

Nós, os cidadãos da Terra,

Das águas, matas e serras

Queremos ser escutados

 

Já que queremos vacina

Global, gratuita e pra todos

E o melhor da medicina

Sem ambição e engodos

Sem sofisma ou fantasia

Mas com muita alegria

Compromisso e denodo

 

Assim podemos dizer

Que não há nenhum favor

Pois o nosso bem-viver

Foi a Fonte quem gerou

Pra melhorar nossos dias

Contra essa pandemia

Uma vacina de amor!

 

Salete Maria

Salvador/BA, 05/10/2020

sexta-feira, 24 de julho de 2020

VAI NAS ASAS DOS ARCANJOS


Batalhou a vida inteira
E agora descansou 
Nasceu em terras granjeiras
Mas Juazeiro adotou 
Como lugar de morada
De lazer e de jornada 
Cidade que lhe abraçou 

De agricultor a poeta
Fiscal de obras urbanas
Dedicado, cumpriu metas
Superou dores tiranas
Esposo, pai e avô
A família sustentou
Mesmo sem ter muita grana

Fez amigos, foi querido
Conhecido em toda parte
Durante o tempo vivido 
Para mim foi baluarte
Cordelista de primeira
Filho da velha romeira
Que nos legou sua arte

Sua partida me dói
Faz-me chorar, à distância
É uma dor que corrói 
Maltrata com implicância
Mas não supera o amor
Que em mim você deixou
Com rimas em abundância 

Segue na luz, tio amado
Vai ao encontro do Pai
Teu nome fica gravado
Com tinta que não se esvai 
Dentro do meu coração 
Feito uma linda oração 
Soprada por Adonai 

Sou grata por tua vida
Tua passagem na Terra
Que não será esquecida
Porque teu sopro se encerra
Louvo a Deus pelas sementes 
Que tu, amorosamente
Plantou no vale e na serra

Descansa em paz, meu poeta
Meu grande incentivador 
Tua obra está completa
Retorna ao Criador 
Abençoa os que ficam
Pois eles significam
Teu fruto que germinou 

Vai nas asas dos Arcanjos
Que derramam leite e mel
Junta-te a outros anjos
Deixa esse mundo cruel
Leva abraços pra Felipe 
Dá lembrança a nossa equipe 
Que se encontra no céu

Roga por nós, neste dia
Que choramos sem cessar
Alivia essa agonia
Este imenso mal estar
Nos ajuda a prosseguir
A suportar, sem cair 
O fim do teu versejar

E já que tu se encantou
E foi para o infinito 
E em tua casa ficou
O teu povo favorito
Recebe o abraço deles
E olha por todos eles
Com teu amor tão bonito

Até mais, Zé Alexandre 
Um dia a gente se vê
Meu ferro hoje é flandre
É triste o nosso sofrer  
Você se foi e eu choro
E ao nosso Deus eu imploro
Que nos ajude a viver. 

Salete Maria, 
Salvador, 24/07/2020

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Live: Cordelirando com Salete Maria


Neste período de quarentena, nada melhor que recitar poesia para relaxar um pouco. E se for cordel, melhor ainda. Assim pensando, o blog Cordelirando estará realizando algumas lives aos domingos com recital e comentários dos principais cordéis de Salete Maria. Participe conosco. Interaja, mande suas perguntas e seus comentários.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

PARA SEMPRE É NOSSO AMOR


Desde que você nasceu
Sentimos tua energia
Foste presente de Deus
E só nos deu alegria
Segues vivo entre nós
Antes, durante e após
E nos veremos um dia

O teu olhar sempre lindo
E tua paz infinita
Levava a vida sorrindo
Oh criatura bonita!
Amado como ninguém
Sempre dizia amém
Em nossa fala restrita

Lembro de sair contigo
Ainda pequenininho
Pois eras muito querido
E falava bem baixinho
Querendo fazer xixi
Dizia: “vamos ali”
E apontava o caminho

Minha mãe te adorava
E te enchia de beijo
Ademais ela gostava
De fazer os teus desejos
Pois enquanto tua tia
Te fazia a regalia  
De baião de dois com queijo

Tua mãe sempre zelosa
Te arrumava direitinho
Com sua mão carinhosa
Sempre dava um jeitinho
De dar o melhor pra ti
Mesmo faltando pra si
Nunca te deixou sozinho

Fez de tudo pra te ver
Realizando teus sonhos
Nunca foi de esmorecer
Com desafios medonhos
Era linda a confiança
E maior a esperança
Cujo tamanho suponho

Pelo que acompanhei
Mesmo estando distante
E por aquilo que sei
Da trajetória brilhante
Onde amor e carinho
Jamais faltou no teu ninho
Nem sequer por um instante

Tu foste sempre guerreiro
Sonhador e abnegado
Além de muito festeiro
Vaidoso e educado
Sensível e amoroso
Lindo, leve e gostoso
Amigo e filho amado

Pela área da saúde
Tinha paixão desmedida
Dedicou-se amiúde
Ao longo de tua vida
Formou-se em enfermagem
Com excelente bagagem
Mas não parou nesta lida

Partiu para a medicina
Com grande dedicação
Sentindo que tua sina
Pedia ampliação
Do saber adquirido
Pois este era o sentido
Da tua jovem missão

Com muita perseverança
Em terras bolivianas
Gerou autoconfiança
Dedicando horas insanas
Aos estudos exigentes
Pois jamais foi negligente
Nem mesmo com tua grana

Entre desejo e dever
Foi construindo o caminho
E sempre soube acolher
Quem pousou em vosso ninho
Solidário e amistoso
Tinha um coração bondoso
Típico de um anjinho

Teus irmãos sempre presentes
Ao longo de tua vida
Orgulhosos e contentes
De cada luta vencida
E teus avós satisfeitos
Porque eras bem aceito
Em terra desconhecida

Praticamente formado
Seguia comprometido
Talvez um pouco cansado
Mas sempre muito envolvido
Quando então adoeceu
E mui firme combateu
Antes de quedar vencido

Lutou com garra e fé
Com tua mãe do teu lado
Esta incrível mulher
De coração alquebrado
Cujo esforço é bendito
Cujo amor é infinito
E cujo corpo é cansado

Partiste precocemente
Deixando muita saudade
Mas vives eternamente
Em nossa capacidade
De lembrar e de sentir
De sonhar e de intuir
A tua cumplicidade

Dói bastante tua ausência
Física e/ou material
Mas em nossa consciência
Sempre serás imortal
Porque tudo é energia
Te sentimos noite e dia
Pois sempre há um sinal

Nas fotos que compartimos
Na lembrança inesquecível
Nos momentos que sorrimos
No teu legado incrível
De ser humano de luz
Cuja força nos conduz
E segue em outro nível

Onde tudo é harmonia
Não há dor ou sofrimento
Onde há paz e sintonia
Entre Deus e seus rebentos
Onde o Todo se compraz
Pois todos somos iguais
Em valor e sentimentos

Por isso, Lipe, eu penso
Que você deve estar bem
Entre os seres ascensos
Que aí vivem também
E podem nos ajudar
A tristeza suportar
Até descermos do trem

Você que tanto amou
Os estudos em saúde
Que tanto se aprofundou
Dedicando a juventude
Peça ao Doutor do doutor
Que nos cure, por favor
De um baque em magnitude

Perdoe-nos, ó meu querido
Porque sentimos tristeza
É que um coração ferido
Nem sempre vê a beleza
Nos ajude a levantar
E em ti nos inspirar
Com tua luz e leveza

Receba um abraço forte
Cheio de amor profundo
De Juazeiro do Norte
E doutras partes do mundo
Onde você é lembrado
Como um ser equilibrado
Sensato e super fecundo

Cuja semente se expande
E fertiliza o porvir
Deste universo tão grande
Do qual se pode ouvir
A voz de Deus em ação
Por meio de uma oração
Endereçada a ti

Para que descanse em paz
Em tua nova morada
Longe da vida fugaz
Da qual não sabemos nada
Por mais que queiramos ser
Realizar ou viver
Sempre há outra jornada

Saiba que tua batalha
Não foi perdida pra Deus
Pois tua maior medalha
Foi ter amado aos teus
Familiares e amigos
Dos novos aos mais antigos
Que jamais dizem adeus

Os que estão na eternidade
E os que vivem na Terra
São conectividades
Pois nenhum laço se encerra
Já que todos Somos Um
Vindos da matriz comum
Subindo a mesma serra

Segue na luz, meu guerreiro
Anjo bom e iluminado
Fostes grande companheiro
Filho e neto adorado
Irmão e amigo parceiro
Profissional timoneiro
Acadêmico devotado

Segue na paz, meu querido
Sendo nossa estrela guia
Jamais serás esquecido
Seja noite ou seja dia
Pois Sonia sempre nos diz:
Felipe é “casal raiz”
E eterna é a parceria

Muitos de nós não sabemos
Como lidar com a dor
E tampouco entendemos
O que sabe o Criador
Mas uma coisa dizemos
Por tudo que nós vivemos
Para sempre é nosso amor!

Salete Maria
Cidade do México, 07/05/2020

terça-feira, 5 de maio de 2020

O MOTT É CELEBRAR!


Hoje é dia seis de maio
Do ano dois mil e vinte
Vejamos como me saio 
Rimando sobre o seguinte 
Nesta data especial 
Sobre um cara original 
Cheio de luz e requinte 

Ele soma mais um ano
De vida fenomenal 
E segue fazendo plano
Nesta indústria vital 
Repleto de energia
De amor e rebeldia
E isto é um bom sinal

Ele faz setenta e quatro
E me causa alegria 
Seria um espalhafato
Se não fosse a pandemia
Pois o ilustre veterano 
Segue lindo e soberano 
Esbanjando euforia 

De nascença paulistano
Ele elegeu a Bahia
Onde sagrado e profano
Se misturam noite e dia
E em plena ditadura
Rompeu com a atadura
E amou com ousadia 

Ele é grande liderança
Fundador do GGB
Homem de muita andança
Com quem se pode aprender
Tudo sobre homofobia 
História e antropologia 
Ou nas tretas se meter

É grande pesquisador 
E professor respeitado
Militante e escritor 
Além de gay declarado 
Em Roma está agora 
Doido para ir embora
Mas seu voo foi cancelado 

Militante destacado
Polêmico e combativo
“O decano dos viados”
É todo superlativo
Se briga, é em demasia
Se ama, hipertrofia 
Se fala, é impulsivo 

Se luta, não arrefece
Se gosta, não abandona
Se mira, jamais esquece
Se curte, chama de mona 
Só vive na internet 
Grudado feito chiclete
Mais famoso que Madona

Muitas vezes premiado
Com medalhas nacionais
De igual modo celebrado
Em textos transnacionais 
Porém também odiado
E até demonizado
Por quem proclama a paz

Já viveu em seminário
Onde tudo desvendou
Não quis ser celibatário
Pois a vida o encantou
É pai e avô arretado
Mas também é desbocado
E muito namorador 

Cozinha como ninguém
E sabe ser bom amigo
Eu lhe quero muito bem
E sei que corro perigo
Pois ele é do babado
Coleciona intrigados
Além de ter inimigos 

Muitos livros escreveu
E artigos publicou 
Muito evento promoveu
E palestras ministrou
Já abalou multidões 
Já encantou corações 
E muita gente inspirou 

Sempre defendeu direitos
Pra comunidade gay
Esteve à frente de pleitos
Dentro e fora da lei
Combatendo homofobia
Disseminando alegria 
Pra isso desceu pro play 

Segue na luta diária
Promovendo discussões
Não importa a faixa etária
Sempre traz reflexões
Diz que “ser gay é legal”
Pega a cobra, mostra o pau
Conduz marchas e ações 

Trata-se de Luiz Mott
Ativista brasileiro 
Que um dia tive a sorte
De achar seu paradeiro 
Louvar sua produção 
E com ele comer feijão 
Sentada no seu terreiro 

Celebro sua existência 
Mesmo estando distante 
E apesar das divergências 
Pra mim é reconfortante 
Saber que ele está bem
Por isso digo amém 
Pois o admiro bastante 

Assim termino meu verso
Feito em plena quarentena 
Pedindo ao Universo
Que lhe conceda uma centena
Ou mais, de anos felizes 
Para que nós, aprendizes,
Possamos vê-lo em cena!

Salete Maria
Cidade do México, 06/05/2020

sexta-feira, 24 de abril de 2020

MINHA LIVRE EXPRESSÃO


Meu cordel não é refém
De nenhuma igrejinha
Não vive dizendo amém
A nenhuma ladainha
De partido ou guru
Seja do norte ou do sul
Da sua terra ou da minha

Meu cordel nasceu liberto
Afoito e desembestado 
Esteja longe ou perto 
Da cepa em que foi gerado 
Não perde ocasião 
Fura a boca do balão 
Solta o que tá engasgado 

São anos de cordelírio 
Sobre temas variados
Há rimas que são colírio
Para olhos embaçados
Outras causam mal-estar
Porque não quero rimar
Em favor dos potentados 

Tampouco a minha lira
Reforça briga de galo 
Ou faz coro com quem pira
Metido até o talo 
Em disputas de poder
Entre dois modos de ser 
Que nos levam pelo ralo 

Faço minha poesia
Em folheto de cordel
Seja noite ou seja dia
Rabisco o meu papel
Do meu ‘lugar de mulher’
Eu vou metendo a colher
E afrontando o bedel

Exerço a livre expressão
Do pensamento que brota
Em qualquer ocasião 
Independente da rota
Escrevo para animar
Outro modo de pensar
Longe da velha lorota 

Exponho desigualdade
Injustiça e violência 
Não tolero iniquidade
Falácia e prepotência
Nem culto personalista 
A um só ponto de vista 
Cheio de incongruência 

Não curto o polarismo 
Da política brasileira 
Nem tampouco o binarismo
Duma turma babadeira 
Meu tempo pede mistura
Movimento e ruptura  
Com a turma da cumeeira 

Que pensa que a poesia
É boneco de ventríloquo 
E quem deseja alforria 
Deve se manter longínquo 
Para não incomodar 
Ou mesmo desmantelar
O tal discurso ubíquo 

Não faço rima pra ser
Modelo para ninguém
Pois só desejo viver
Entre noventa ou cem
Anos de inspiração 
Luta, amor e paixão  
Que a muitos não convém

Por isso o meu folheto
Nem sempre vai agradar
Pois ele não leva jeito
Pra discursos ressonar 
Pois tudo que é hegemônico
Icônico ou histriônico 
Costuma me incomodar 

Meu verso ninguém tutela
Domina ou enclausura 
Não cabe em nenhuma cela
Caixinha ou ditadura 
Porque nasceu no sertão
Onde estaca é mourão   
E doce é rapadura 

Eis porque decepciono
Quem espera adesão 
À campanha do patrono 
Patriarca ou patrão 
De esquerda ou direita
Que na esquina espreita
Minha livre expressão!

Salete Maria 
Cidade do México,
24/04/2020