Cordelirando...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Neste blog você encontrará alguns cordéis de Salete Maria, bem como notícias acerca de sua produção e seu diálogo com outros artistas
... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Lugar de Mulher, recitado por Salete Maria

quinta-feira, 3 de maio de 2012

MANIFESTO PELAS MÃES TRABALHADORAS

Minha mãe trabalha muito
Faz coisas que ninguém faz
Da madrugada à noitinha
Ela batalha demais
Cuida, resolve, alimenta
Limpa, guarda, incrementa
E ainda proclama a paz

Minha mãe há muitos anos
Não para um só segundo
É pau para toda obra
Seja no raso ou no fundo
Ela está sempre ajudando
Protegendo e ensinando
A melhorar este mundo

Minha mãe tem muitos filhos
E muitos netos também
Por isso ela ora muito
Porque dinheiro não tem
Para pagar tanta conta
Então ela fica tonta
Esperando o mês que vem

Minha mãe trabalha em casa
E também fora do lar
Ela labora calada
Sem jamais se lamentar
Acho que está cansada
Pois não é fácil a jornada
Que ela tem que enfrentar

Por isto que eu me zango
E não canso de dizer
Minha mãe não é escrava
Pra ralar até morrer
Portanto tem que mudar
Todos tem que se engajar
Em tudo que há pra fazer:
  
Vamos lavar nosso prato
Tênis, camisa e calcinha
Arrumar o nosso quarto
E regar nossa plantinha
Vamos evitar sujar
Ou então vamos limpar
A sujeira da cozinha

Colocar lixo pra fora
E ajeitar o quintal
Deixar a sala bonita
E preparar o mingau
Lavar calçada e banheiro
E economizar dinheiro
Etecetera e coisa e tal

Marido, filho e agregado
Neto, nora e visitante
Chega de exploração!
Acabem neste instante
Com essa velha mania
De sugar a energia
De minha mãe-tolerante

Tenham vergonha na cara
Deixem dessa opressão
Minha mãe é jóia rara
Pra viver lambendo o chão
Quero vê-la descansando
Passeando, proseando
Curtindo a vida então

Vocês todos ficam putos
Com político ladrão
Mas roubam até o sangue
Daquela que faz o pão
O arroz e a salada
A farofa, a carne assada
E o doce de mamão
   
Nem mesmo aquela loucinha
Vocês  ajudam lavar
Vocês pensam que mamãe
Nunca vai se enferrujar?
Um dia ela vai embora
Ou porque chegou a hora
Ou porque ela quer voar!

Se  exploração materna
Para vocês  é normal
Explorar outras mulheres
Será o seu manual
De regra de convivência
Que, com ou sem consciência,
Semearão, afinal

Então se você  tem mãe
E também tem consciência
Não explore, não oprima
Nem pratique violência
Mi hermana,  mi hermano
Mãe também é ser humano!
Até logo, tchau e bença!

Autora: Salete Maria, maio/2012

Imagem: Google Imagem

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Cordel feito para as Mães de Maio



Mães de Maio: dor e luta!
 
Mães de maio são mulheres
Que lutam pela Justiça
Metendo suas colheres
Nos malfeitos da polícia
Exibindo para o mundo
O resultado imundo
Deste Estado-milícia

São guerreiras incansáveis
Que abrem seus corações
Tristes e inconsoláveis
Contra novos esquadrões
Que em plena democracia
Causam morte e agonia
De imensas proporções

São senhoras combativas
Diversas e populares
Que exercem voz ativa
E ocupam seus lugares
Na luta cotidiana
Contra a polícia tirana
Que executa milhares

São o rosto da coragem
Deste Brasil desigual
Traduzem bem a imagem
Desta guerra desleal:
Cidadão versus Estado
De terror banalizado
E impunidade total

São elas progenitoras
Das vítimas do poder
Da polícia opressora
E da justiça que não vê
Jovens da periferia
Na mira da covardia
Marcados para morrer

São a vanguarda da luta
Contra o Estado assassino
Que tantas vidas encurta
Com seu sistema cretino
Onde jovens inocentes
Tidos como delinquentes
Tem a morte por destino

São grandes protagonistas
Do combate ao genocídio
Que salta à nossa vista
Travestido de homicídio
Em autos de resistência
Cheios de incoerência
E sem qualquer subsídio

São elas quem, no Brasil,
No ano dois mil e seis
Nesta “pátria mãe gentil”
Quando maio era o mês
Tiveram a vida mudada
Pela mais triste jogada
Que as fez “bola da vez”

Quando brigas intestinas
Entre gangues estatais
Ilegais ou genuínas
Porém entre maiorais
Expôs a ferida aberta
São Paulo ficou alerta
E o povo sofreu demais

Quando a polícia saiu
Pelas ruas da cidade
E o horror emergiu
Entre discurso e maldade
Pacatas donas- de-casa
Tiveram que criar asa
Contra a impunidade

Pois em torno de dez dias
Mais de 500 morreram
Em verdadeiras sangrias
Muitos jovens pereceram
Negros eram maioria
Dos pobres que ali havia
Quantos desapareceram?

Assim como noutros tempos
Da historia brasileira
A polícia deu exemplos
De sua face carniceira
Fingindo combate ao crime
Jogou pelo mesmo time
Das práticas justiceiras


Ceifou vidas joviais
Violou direitos humanos
Causou dores maternais
Trouxe choro e desengano
Gerou feridas  eternas
Donde brota  força interna
Para lutar ano a ano

Mulheres que geram vidas
Que dão amor e cuidado
Levantam-se doloridas
Para exigir do Estado
Apuração eficaz
Justiça, verdade e paz
Nenhum processo arquivado!

Déboras e Ednalvas
Veras, Angelas, Marias
Flávias, Ritas e Rosalvas
Francilenes e Sofias
Mães de Maio, lutadoras
Todas são merecedoras
Desta singela elegia.


Autora: Salete Maria
Salvador-BA, 2012.

segunda-feira, 12 de março de 2012

CONVITE!



A Coletânea Cordelirando, da qual falamos no post anterior, já tem data, hora e local certinhos para ser lançada! Se você mora em Salvador, fica a dica de um programaço, com a presença da Cordelista Salete Maria e tudo mais!

Se você não mora em Salvador mas, assim como eu, quer demais a bolsinha linda decorada com fuxico e os nove cordéis de Salete, entra em contato comigo aqui pelo blog ou me manda um email: sammyra_santana@hotmail.com e coloque no assunto: Cordelirando. Aí conversaremos sobre a forma de pagamento (tá baratinho, gente, vinte reais) e, se quiser, ainda dou um jeito de ir autografado! rsrs



Alô você que mora em Salvador!

Neste sábado dia 17, às 13h, na loja de discos 
Pérola Negra, no bairro do Canela, acontece o lançamento 
da coletânea Cordelirando: mulher também faz cordel, 
da cordelista Salete Maria da Silva. 

A compilação Cordelirando: mulher também faz cordel 
contém nove folhetos da cordelista, 
DVD com um dos títulos musicado e um 
ensaio sobre a literatura de cordel no Brasil. 

Outro destaque, volta-se para o encarte: 
uma bolsinha de tecido decorada com fuxicos e 
serigrafia que materializa o fazer artesanal 
que tão bem caracteriza a criatividade nordestina

Neste dia, a cordelista Salete Maria irá recitar
alguns cordéis que versam por temas como
religiosidade popular, sexualidades, violência
e atuação política das minorias representadas no país.

O valor da bolsinha com DVD custa R$ 20,00. 

Vamos celebrar a cultura regional, minha gente!!

sábado, 3 de março de 2012

NOVIDADES QUENTINHAS!

Está saindo do forno uma coletânea de nove cordéis de Salete Maria, incluindo um DVD com um dos títulos musicados! E tudo vem numa bolsinha muito linda (e útil, rs)!
Já quero garantir a minha, e você?
Veja o release do projeto de Gal Meirelles sobre os cordéis de Salete Maria:

Cordelirando: mulher também faz cordel

A coletânea Cordelirando: mulher também faz cordel é composta por nove folhetos da cordelista Salete Maria da Silva, um DVD com dos títulos musicado e um ensaio sobre a literatura de cordel no Brasil. Na história desta literatura no país, a produção feminina é minoria, tornando-se menos conhecida e estudada. Por sua vez, esta coletânea destaca a produção da cordelista Salete Maria e apresenta títulos que versam sobre a vida e ação das mulheres. Além disso, destaca temas como religiosidade popular, sexualidades, violência e atuação política das minorias sub representadas no país. Nesta coletânea, por meio da leitura e da audição, o leitor-ouvinte vai deparar-se com a cultura popular nordestina a partir do contato com uma voz narrativa que propõe discussão de um discurso universalizante sobre temas que abrange o ser humano nos mais diversos contextos. A voz narrativa propõe borrar os discursos históricos e culturais que se institui como hegenômicos para instalar outras alternativas no campo da temática e da estrutura do cordel tradicional. Outra especificidade da coletânea é o encarte: uma bolsinha de tecido decorada com fuxicos e serigrafia que materializa o fazer artesanal que tão bem caracteriza a criatividade nordestina.


O que: Coletânea Cordelirando: mulher também faz cordel
Cordéis: Salete Maria da Silva
Organização: Gal Meirelles
Produção: Gal Meirelles e Salete Maria da Silva
Assessoria de comunicação: Nerivaldo Góes – (71) 9173-0539
Edição: Vento Leste Gráfica e Editora
Contato: (71) 9966-9097 / (71) 9174-6940
www.cordelirando.blogspot.com



Fotos desta postagem: Gal Meirelles






terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A DESFORRA DE BARTIRA

A mulher entrou na sala
E o mundo estremeceu
Estarrecida e sem fala
Logo ela reconheceu
Toda a gente da cidade
Que na oportunidade
Lamentava o que se deu

Viu Lena de Manezim
- sua comadre e amiga-
Marcela de seu Quinzim
- que adora fazer intriga -
Viu Chico de Soledade
Que outrora, na mocidade
Juntos colheram espiga

Viu os filhos e sobrinhos
O pai, a mãe, a irmã
Avistou uns rapazinhos
E algumas anciãs
Olhou e viu as vizinhas
Todas bem arrumadinhas
Naquela triste manhã

Viu o padre e o pastor
O delegado e o juiz
Viu também um professor
E um jovem aprendiz
Um faxineiro e um poeta
Um cantor e um atleta
Um louco e uma meretriz

Viu garçom e operário
Médico e agricultor
Um gay fora do armário
E a vendedora de flor
Viu com muita emoção
A vó com terço na mão
“Orando pro Redentor”

Viu mendigo e barão
Branco, negro e amarelo
Viu gigante e anão
Rico e pé de chinelo
Adulto, velho e criança
Mas se viu sem esperança
Quando bateram martelo

Nesta hora um senhor
Gritou “justiça”- em voz alta
Ao lado do promotor
- que vestia negra bata-
O juiz pediu silêncio
E convidou Inocêncio
Para então ler a ata

Jurados se levantaram
Com o semblante medonho
Todos ali se calaram
Ante o ritual tristonho
Da leitura da sentença
Onde quem tinha uma crença
Pedia que fosse sonho

O oficial tremia
E mal podia falar
Uma palavra dizia
Para depois se calar
Não conseguiu ler o texto
Pois conhecia o contexto
E começou a chorar

O juiz então chamou
O assistente mais novo
E este assim começou
- olhando bem para o povo:
Nesta pátria mãe gentil
Aos cinco dias de abril
Condeno a ladra dum ovo!

O veredito dizia
Em linguagem empolada
Que Bartira cumpriria
Uma pena delongada
Num tal regime fechado
Onde o sol nasce quadrado
E a pessoa sai mudada

O povo se entreolhou
E começou a vaiar
Então Bartira falou:
Seu juiz vá se lascar
Aqui ninguém é palhaço
O senhor solta o ricaço
E me prende em seu lugar?

Não pratiquei nenhum crime
Quando ‘um’ ovo peguei
Pois a dona faz regime
E eu apenas tomei
O tal ovo emprestado
Mas vi que tava galado 
Na hora que o fritei

Eu sequer usufruí
Do ovo a que tive acesso
Pois logo que o comi
Fiquei cheia de abcesso
Saiba que não sou bandida
Pois o que tenho é ferida
E isto não dá processo

A senhora está dizendo
Que o ovo estava gerado?
- interveio o promotor
num tom muito injuriado -
Pois agora complicou
Pois aborto praticou
Contra um feto malformado

Vejam isto, meus senhores,
E ilustres autoridades
Excelências e doutores
Habitantes da cidade
Este é o julgamento
De Bartira Sacramento
Este exemplo de bondade!

Ela, aqui, foi acusada
De furto qualificado
E consta que foi flagrada
Comendo o ovo afanado
Mas agora confessou
Que aborto praticou
Contra o pintinho esperado

Portanto ficou pior
A sua situação
E não podemos ter dó
Deste  ser sem coração
Esta assassina cruel
Será julgada no céu
E lá não terá perdão

Impediu que um nascituro
Enxergasse a luz do dia
Um neonato futuro
Que só traria alegria
Como galeto de sorte
Teria uma boa morte
E nos alimentaria

Justiça tem que ser feita
E a sociedade clama
Quero a prisão da sujeita
Quero seu nome na lama
Pois além de ser ladrona
Ela é também comelona
E ainda mais se ufana

Meritíssimo juiz
Fiel cumpridor da lei
A Carta Magna diz
Que nosso povo é rei
Nós ouvimos a comarca
Onde deixo a minha marca
E por quem me empenhei

Ao longo de vinte anos
Me dediquei ao mister
Mas estou fazendo planos
De voltar pra Jequié
E como fui democrata
Sei que esta gente é grata
E vai me aplaudir de pé

De repente uma velha
Que sentava ao fim da sala
Chamada Dona Amélia
- a vendedora de bala -
Disse: eu quero falar
Pois Bartira não é má
Mas o senhor é um mala

Tá pensando que a gente
É um bando de otário?
Quer prender a inocente
Com esse conto do vigário?
Bartira é desempregada
E só deu essa mancada
Porque não teve salário

Não teve estudo na vida
Nem teve oportunidade
Nem quem lhe desse guarida
Nesta tal “sociedade”
Que lhe nega um trabalho
E só lhe dá quebra galho
Pra lhe acusar de maldade

Eu não sou advogada
E nem conheço das leis
Mas foi grande a burrada
Que sua justiça fez
Condenando essa mulher
Por um ovinho qualquer
Pra ser a bola da vez

O juiz interrompeu
A fala da tal senhora
E o delegado a prendeu
Dando o flagrante na hora
Dizendo: foi desacato!
Ela fez espalhafato
E isso não se ignora

O doutor solicitou
Que a força policial
Evacuasse o setor
Interno do tribunal
E dali logo saiu:
“Pois se o júri decidiu,
Que se cumpra, afinal”

Bartira se levantou
E foi rodando à baiana
Olhando pro promotor
Como quem não se engana
Falou em alto e bom som
Como quem já tinha o dom
De desmascarar sacana:

Deixe de ser demagogo
E denuncie os prefeitos
Governadores e sogros
Que só vivem de mal feitos
Vá prender estes ministros
Que com seu jogo sinistro
Roubam o cidadão direito

Vá enquadrar os pilantras
Que usurpam o Erário
E ficam cantando mantras
Chamando o povo de otário
Em gabinetes de luxo
Bebendo e forrando o bucho
Com altíssimos salários

Porque o senhor não lê
O que diz minha defesa
Pra todo mundo saber 
O grau da minha pobreza
Por que a sua justiça
Não prende essa mundiça
Que destrói a natureza?

Que desmata a floresta
E saqueia o que é do povo
Que vive fazendo festa
E se elegendo de novo
Enganando a nação
Com tanta corrupção
Só porque não roubam ovo?

Eu pergunto: e esta gente
Quando irá para a cadeia?
O senhor acha decente
O povo viver na peia?
Se oriente, meu chapa
Se não você sai do mapa
Ou se enrosca na teia

Você se acha o gigante
Porque sempre ganha a briga
Mas seu grito retumbante
Só soa contra a formiga
Vá lutar contra o elefante
Tire essa roupa elegante
E mostre sua barriga

Tô indo para a cadeia
Porque furtei um ovinho
E porque tenho na veia
O sangue do zé povinho
Mas se eu fosse uma ministra
Que roubasse em sua vista
Você daria um jeitinho

Me enoja o seu direito
Suas leis e seu poder
O seu discurso perfeito
Para quem não sabe ler
A sua visão de mundo
Seu cérebro sujismundo
Quero é cuspir em você

Sou mais uma brasileira
Que está cansada de ver
Vocês falarem asneiras
Pensando que a gente crê
Na lábia que vocês tem
E não convence ninguém
Chega de teretetê

E já que estarei privada
Desta minha “liberdade”
Pois serei encarcerada
No auge da mocidade
Quero mais que vá pra porra
Essa Justiça de zorra
E sua podre verdade!

Que se danem os bacharéis
- os tais donos do poder-
Com reluzentes anéis
E terninhos demodê
Falando em juridiquês
A serviço do burguês
Botando pra nos foder

Mas eu hei de ver o dia
Que o povo vai acordar
E lutar por alforria
Contra essa justiça má
Que faz distinção de classe
Mas que vive de disfarce
Pra poder nos enganar

Tô indo, pois tô detida
Sob o poder do Estado
Eis agora a minha vida
Será fato consumado?
Nos vemos lá na masmorra
Ou na próxima desforra
Quando houver outro julgado!